quarta-feira, 20 de julho de 2011

Desigualdade do Chile é combustível de protestos

Boom econômico não anulou a divisão em faixas de renda 'nórdica' e 'africana'

Maioria dos chilenos se sente excluída, diz relatório; renda média no país é de US$ 693, inferior a de Angola


Victor Ruiz Caballero/Reuters
Em Santiago, estudante protesta vestido de Super-Homem

LUCAS FERRAZ
ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO

Apontado há anos como exemplo político e econômico da América Latina, o Chile vive um dilema que não consegue resolver: como distribuir sua riqueza.
A alta concentração de renda no país, que deixa mais da metade da população alijada do boom econômico dos últimos anos -média de crescimento de 5% ao ano-, é um dos motores da onda de protestos no país há dois meses.
A percepção dos chilenos é que o país vai bem, mas a maioria não se sente incluída socialmente. Estudo feito pelo Instituto de Políticas Públicas da Universidade Diego Portales revela que 60% dos 17 milhões de chilenos têm renda média inferior à de Angola.
O Chile, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, ocupa a posição 44, a melhor de um país latino-americano. O país africano, no mesmo ranking, está no posto 146.
No outro lado da pirâmide, na ponta mais estreita, 20% dos chilenos vivem com renda semelhante à de países nórdicos como Noruega e Dinamarca.
"É muito difícil acabar com a desigualdade sem reformas", disse à Folha o economista Cristobal Aninat, diretor do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Diego Portales.
E é contra tal falta de resposta do governo que vem o descontentamento da população com a classe política, não somente à gestão do conservador Sebastián Piñera.
"Mais de 70% dos estudantes chilenos são pobres e estão endividados; isso diz muito sobre os atuais protestos", completa Aninat. A renda média chilena é de US$ 693, mas cursar alguma disciplina na tradicional Universidade do Chile, que é pública, mas não gratuita, custa por ano US$ 8.000.
"Há uma assimetria escandalosa no país, uma hora isso ia arrebentar", admite o economista Marcel Claude.
A alta concentração de renda e a inépcia dos políticos, que até agora não deram uma resposta, são uma das causas da insatisfação popular. E a conta é creditada tanto à Concertación, a coalizão de partidos de esquerda que governou o Chile nos 20 anos pós-ditadura, hoje na oposição, quanto à Alianza, que reúne partidos de direita e sustenta o governo Piñera.
Prova da crise de representação são os números da última eleição presidencial, em janeiro de 2010. Dos 12,5 milhões de eleitores, somente 7,5 milhões se inscreveram.
"A classe política está fechada em si mesma, há muito tempo que ninguém se sente representado ou incluído", diz Camilo Tapia, 26, atendente de um café em Santiago. Ele e outros 5 milhões de eleitores optaram por não participar da última eleição.

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