domingo, 3 de julho de 2011

Crise evidencia o amadorismo de governistas e da oposição

ANÁLISE

CHRISTOPHER GARMAN
ESPECIAL PARA A FOLHA

A admissão do presidente Hugo Chávez de que passou por cirurgia para retirar um tumor, depois de semanas de especulação sobre seu estado de saúde, cria um grande ponto de interrogação no cenário político da Venezuela.
A saúde do presidente se transformou em fator determinante para as eleições presidenciais do ano que vem.
Caso o presidente venha a se recuperar, ele facilmente transformará o episódio em mais uma evidência de seu espírito lutador, que atravessa adversidades com êxito.
O script pode ser muito parecido ao que ocorreu no Brasil com o estado de saúde da presidente Dilma Rousseff no ano antes da eleição de 2010.
Entretanto, caso o estado de saúde dele seja mais grave e ele não tenha plena capacidade de governar e conduzir uma campanha eleitoral, a eleição fica em aberto.
As bases de apoio de Chávez nunca estiveram tão precárias. A economia não dá sinais de recuperação, a inflação permanece próxima de 30% e a aprovação do presidente se encontra em um patamar perigosamente baixo, ao redor de 45%.
Caso o eleitorado tenha dúvidas sobre sua capacidade de governar, a oposição terá chances concretas de vencer.
As últimas duas semanas também evidenciaram a tremenda falta de organização, profissionalismo e institucionalidade no sistema político.
A incapacidade da oposição de montar uma campanha profissional se evidenciou na reação de seu principal líder, Henrique Capriles Radonski. Em vez de assumir posição mais "presidencial" com a notícia de que o presidente tinha sido internado em Cuba, ele afirmou que tudo não passava de uma maneira de distrair o eleitorado.
Do lado do governo, a incapacidade de os ministros administrarem dúvidas sobre a saúde do presidente (eles estavam negando o fato de Chávez ter câncer até dois dias atrás) também ressaltou o grau de amadorismo.
Tudo isso nos leva a crer que qualquer transição será repleta de instabilidade.

CHRISTOPHER GARMAN é diretor para a América Latina da consultoria Eurasia Group.

Folha de São Paulo, 03/07/2011

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