sábado, 2 de julho de 2011

Cobertura do caso nos EUA seguiu jogo dos estereótipos

ANÁLISE



"SER UM HOMEM BRANCO E RICO O PÕE EM DESVANTAGEM NESSA SITUAÇÃO", APONTA EDITOR DO "LE MONDE"


NELSON DE SÁ
ARTICULISTA DA FOLHA

Começou com a chamada "perp walk", caminhada do perpetrador, prática de mídia que o então promotor Rudolph Giuliani tornou regra nos anos 1980.
Dominique Strauss-Kahn, mal se viu acusado, caminhou para as câmeras como criminoso, sendo levado por policiais.
O rico francês que estuprou a pobre camareira africana, na narrativa abraçada pelos tabloides nova-iorquinos, com eco em jornais de prestígio mundo afora.
Em manchetes seguidas do "New York Post" e do "New York Daily News", DSK virou "Le Perv", o pervertido, que se escondia na mansão de US$ 50 mil (R$ 78 mil) por mês, financiado pela esposa francesa milionária.
A cobertura americana logo passou à xenofobia, com expressões como "Booty Gaul", reunindo gaulês com um palavrão para sexo, e até "Pepé Le Pew", o gambá francês dos desenhos de TV -ambas do "Post".
Não demorou e também surgiram denúncias anteriores de assédio. DSK e seu suposto ato foram tomados como bandeira por feministas.
Colunas deram o francês por culpado, especulando sobre motivos e significados.
Até que ontem, em manchete, o "New York Times" publicou que o próprio procurador Cyrus Vance, que antes via o relato da suposta vítima como "consistente", agora tinha "dúvidas sobre a acusadora". Ela teria mentido seguidamente.
Ironizado por mais uma provável derrota em caso de repercussão, Vance surgiu para as câmeras, dizendo que seu "compromisso é com a verdade e os fatos", mas não tirou a acusação.
Na França, "Libération" e "Le Monde" descreveram a reviravolta com a mesma expressão, "coup de théâtre", golpe de teatro, referência à mudança brusca e sem explicação da narrativa.
E o editor do "Monde" disse que, "sem contrapeso, a dupla Justiça-Imprensa pode criar um fervor devastador".
Ele aponta "inversão de valores no jogo de estereótipos: ser um homem branco rico o põe hoje, a priori, em desvantagem numa situação assim".
Nos EUA, uma feminista que havia se empolgado na condenação de DSK, na "New Yorker", dizia agora estar evitando "julgar, tendo feito isso com entusiasmo", do que se arrepende:
"Eu tinha 'certeza' que DSK era culpado. Estava orgulhosa da polícia por defender uma mulher pobre, sem poder, contra um homem rico e poderoso. Cega pelos estereótipos, talvez".
O editor francês e a ensaísta americana, agora, evitam prejulgar. Já o tabloide "New York Post" garante, agora, que noticiou semanas atrás os questionamentos à credibilidade da suposta vítima.

Folha de São Paulo, 02/07/2011

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