domingo, 3 de julho de 2011

Câncer de Chávez agrava caos venezuelano

País vive sucessão de crises; nos últimos meses, rebeliões prisionais somaram-se a inflação alta e falta de energia

Para analistas, situação desgastou o governo sem debilitá-lo, mas o impacto do câncer ainda não se fez sentir

Harold Escalona-23.jun.2011/Efe
Parente de preso rebelado na penitenciária de Rodeo 2, perto de Caracas, pede ao governo Chávez que evite violência

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS

A revelação de Hugo Chávez de que tem câncer, sua prolongada estada em Cuba e as incertezas que a situação abre no cenário eleitoral engrossam o caldeirão de uma crise que se arrasta na Venezuela desde o fim de 2009.
Na terça, Chávez completa um mês fora do país e 25 dias de convalescência em Havana. Durante sua ausência, problemas recrudesceram.
No começo do mês, o governo reconheceu que a deficiência elétrica surgida no fim de 2009 não fora sanada.
Voltaram os apagões programados, as multas por alto consumo. As medidas derrubaram as expectativas de crescimento econômico do país, justamente quando o governo comemorava o fim da recessão de dois anos.
A pasta econômica sustenta que o país vai crescer 3%, com inflação ao redor de 30% anuais. Já são três anos consecutivos de queda do salário real, diz a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), e a previsão é que 2011 não seja distinto.
Em meio à falta de transparência sobre a doença de Chávez -só na quinta-feira ele revelou que fora operado para retirada de um tumor-, a Venezuela seguia pela TV a tentativa da Guarda Nacional de retomar o controle de dois complexos prisionais.
Cerca de mil detentos se amotinaram, fortemente armados, em batalha com os soldados nacionais, seguida com desespero pelos parentes do lado de fora.
Na sexta, o governo dispersou um protesto de familiares com gás lacrimogêneo.
"'É uma situação delicada. Já havia um mal-estar acentuado num país dividido. Um número recorde de protestos desde os anos 80. Há uma crise de gestão, que é muito má. A doença de Chávez adiciona pressão à panela", diz a socióloga Margarita López Maya.
As crises simultâneas desgastaram, mas não debilitavam o governo como se esperaria. A explicação, segundo o analista Javier Corrales, vem do que ele chama de caráter híbrido do regime (eleições livres, mas não justas, deterioração progressiva da separação de Poderes).
"Os regimes híbridos têm mais condições de resistir a crises. A cada novo dia no poder, Chávez avança mais no domínio do Estado. Indica mais funcionários, juízes", afirma o especialista.
Num país onde uma massa importante é funcionária pública e depende de alinhamento político para manter o posto, o efeito de três anos de recessão pode não se refletir nas urnas como outros países, completa Corrales.
Hoje, a popularidade de Chávez é pouco superior a 50% -fora da sua "zona de conforto" e em empate virtual com os antichavistas, mas nada ruim para um governante há 12 anos no cargo.

'INVULNERÁVEL'
O panorama de dano controlado rumo às eleições presidenciais de 2012 deve se alterar com o fator "saúde do presidente bolivariano".
"O anúncio muda dramaticamente a situação política da Venezuela. A revolução é Chávez. Não existe sem ele. A declaração de Chávez é tão importante que não é possível prever seu impacto antes que ela se assente", diz Luis Vicente León, do instituto de pesquisas Datanálisis.
"Estamos falando de um líder invulnerável, controlador. Nem ele sabe bem qual pode ser o desenlace."

Folha de São Paulo, 03/07/2011

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