sábado, 2 de julho de 2011

Brasil teme resultados de vácuo de poder na Venezuela

Embaixada em Caracas informou ao Itamaraty que Chávez tem direito constitucional de indicar um sucessor, em caso de impedimento

ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA

MÁRCIO FALCÃO
DE BRASÍLIA

Apesar de toda a ligação política com a Venezuela, o governo brasileiro só soube do câncer do presidente Hugo Chávez por seu pronunciamento na TV e teme o que possa ocorrer no país em caso de impedimento longo ou definitivo de Chávez.
Conforme a Embaixada do Brasil em Caracas comunicou ao Itamaraty, a Constituição venezuelana, feita ao gosto de Chávez, prevê que em caso de vacância assume o vice ou alguém de livre escolha do próprio presidente.
Ou seja: Chávez tem o instrumento legal para tirar alguém da cartola.
Uma possibilidade é que a Venezuela repita o processo de sua aliada Cuba: de irmão para irmão. Fidel Castro, que também tem câncer, foi substituído pelo irmão, Raúl Castro. Hugo Chávez poderá indicar o seu, Adán Chávez, para a Presidência.
Em mensagem de seis linhas a Chávez, a presidente Dilma Rousseff, que já tratou um câncer linfático, desejou "pronto restabelecimento" e disse que "nos momentos difíceis pelos quais todos passamos é importante não só cuidados dos médicos, como nossa coragem pessoal e a solidariedade dos amigos".
Ao finalizar, a presidente disse a Chávez que "coragem não lhe falta" e completou: "Esteja certo de que não lhe falta também a solidariedade de todos os amigos".

INTERESSES
O presente e o futuro da Venezuela são muito importantes para o Brasil, não apenas pela questão geoestratégica, mas também pelos intensos interesses tanto do governo quanto do setor privado brasileiro no país.
O comércio bilateral foi de US$ 4,6 bi (R$ 7,1 bilhões) em 2010, com um crescimento de 11,8% na comparação com 2009 e francamente favorável ao Brasil. As exportações brasileiras para a Venezuela foram de US$ 3,8 bilhões (R$ 5,9 bilhões) com um leque de ofertas, enquanto o país praticamente só exporta petróleo e derivados para o Brasil.
Inúmeras empresas brasileiras, como a Petrobras e a empreiteira Norberto Odebrecht, têm grandes investimentos na Venezuela nas áreas de petróleo e de construção de pontes e infraestrutura.
A aproximação começou no governo Fernando Henrique Cardoso, intensificou-se com o de Luiz Inácio Lula da Silva e se mantém agora com Dilma Rousseff, incluindo reuniões periódicas de nível presidencial para avaliar o andamento de projetos conjuntos.
Chávez veio para a posse de Dilma e os dois se encontraram no mês passado em Brasília, na primeira visita oficial dele ao país no novo governo.
Folha de São Paulo, 02/07/2011

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