domingo, 3 de julho de 2011

Aliado, Chomsky contesta venezuelano

Em carta aberta a Chávez, ícone da esquerda americana pede que presidente liberte juíza em prisão domiciliar

Acusada de corrupção por libertar banqueiro, a magistrada María Lourdes Afiuni diz que o processo é político

CLAUDIA ANTUNES
DO RIO

O linguista Noam Chomsky, ícone da esquerda americana, divulga hoje na Venezuela carta aberta pela libertação da juíza María Lourdes Afiuni, 48, detida desde dezembro de 2009 sem julgamento.
Acusada de corrupção pelo próprio presidente Hugo Chávez após conceder liberdade condicional a um empresário, a juíza diz que o processo contra ela é político.
"Numa época em que o mundo se vê sacudido por clamores de liberdade, a detenção (...) sobressai como uma exceção flagrante que deve ser remediada rapidamente, pelo bem da justiça e dos direitos humanos em geral e para afirmar o papel honrado da Venezuela nestas lutas", afirma a carta.
A Folha teve acesso antecipado ao texto, que deve causar impacto devido à admiração declarada do presidente por Chomsky.
Em 2006, na ONU, o venezuelano recomendou a leitura de "O Império Americano: Hegemonia ou Sobrevivência" (Campus), livro do linguista. Os dois se encontraram em Caracas há dois anos.
Em entrevista à Folha, Chomsky se disse "empolgado" com a esquerda sul-americana, mas afirmou que as denúncias sobre a falta de independência do Judiciário na Venezuela "merecem ser levadas muito a sério".
O professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) vinha há sete meses tentando uma mediação discreta em favor da juíza, a pedido do Centro Carr de Políticas de Direitos Humanos, da Universidade Harvard.
Ele enviou três apelos ao venezuelano, sem resposta. Em janeiro, porém, Afiuni passou à prisão domiciliar após operação para remover o útero. Leonardo Vivas, do Centro Carr, avalia que o pedido "cordial, mas firme" de Chomsky pode ter pesado.
A decisão de divulgar uma carta agora foi tomada antes de Chávez anunciar que está com câncer. O centro e Chomsky resolveram levá-la adiante, e o linguista disse que espera a "pronta e total" recuperação do venezuelano.
O texto sairá hoje no jornal "Ultima Noticias", o de maior circulação na Venezuela e o único que não faz oposição sistemática a Chávez.
Ele pede um "gesto de clemência", sob a forma de "perdão oficial". Menciona o "tratamento degradante" a Afiuni na prisão, onde ficou com mulheres que havia condenado e foi ameaçada.
A carta não entra no mérito da acusação contra a juíza, detida após libertar o banqueiro Eligio Cedeño, ex-aliado do governo acusado de fraude cambial e hoje asilado nos EUA. Afiuni foi acusada de receber suborno dele e infringir normas processuais.
A acusação de suborno não foi provada pela Promotoria. A juíza afirma que ditou o habeas corpus porque o prazo legal de detenção de Cedeño sem julgamento (ele foi preso em 2006) se esgotara.

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