quarta-feira, 22 de junho de 2011

Vida na contramão

MINHA HISTÓRIA RAINYA ALMAHOZI, 24

Saudita de 24 anos incentiva outras mulheres a dirigir no país, contrariando veto; ela conseguiu a habilitação no Bahrein, onde cursou comunicação


Arquivo Pessoal
A saudita Raniya Almahozi, 24, que postou vídeo dirigindo um carro na Arábia Saudita

RESUMO A saudita Raniya Almahozi, 24, tirou a carteira de habilitação no Bahrein, onde cursou a faculdade de comunicação e relações públicas. Porém, na Arábia Saudita, ela tem de pedir que o pai ou o motorista guiem por ela, porque mulheres não podem assumir o volante no país. Ela conta que foi interrogada e teme ser presa pela polícia, depois de postar vídeo no YouTube dentro de um carro. Para ela, dirigir é mais seguro do que ter motoristas.

DIOGO BERCITO
DE SÃO PAULO

Meu nome é Raniya Almahozi e tenho 24 anos. Eu me formei na universidade em 2009, no Bahrein, nos cursos de comunicação de massa e relações públicas. Não tenho um emprego até hoje.
Sou solteira e tirei a carteira de habilitação no Bahrein. Aqui na Arábia Saudita, dependo dos homens da minha família para andar de carro, principalmente de meu pai e de um motorista particular estrangeiro que contratamos.
Não dirigi durante o protesto de 17 de junho porque eu acho que já expressei minha opinião ao me filmar ao volante em 20 de maio, logo após a prisão de Manal al-Sharif, a líder do movimento.
Eu tenho medo de ser presa, mas acho que tenho de defender o nosso direito, que vejo como um direito bastante básico e simples. Porém, Manal foi quem sofreu mais.
A polícia saudita estava procurando por mim por um mês inteiro. Eles sabiam quem eu era. Na semana passada, eles me interrogaram. Antes de 17 de junho, havia muito perigo. Agora, a situação está um pouco mais segura. A investigação não foi tão ruim, graças a Deus e à cobertura da mídia sobre o que ocorreu com Manal.

RAZÕES
O intuito de me filmar dirigindo um carro e colocar no YouTube foi mostrar às pessoas no comando que mulheres podem, sim, guiar sem problemas.
Não é o fim do mundo. As mulheres precisam dirigir. É muito mais seguro do que estar com motoristas desconhecidos.
É claro que eu apoio Manal e todas as mulheres da Arábia Saudita a agir pelo menos uma vez. Cada movimento tem seu próprio impacto. Não vou fazer comentários a respeito das outras revoluções árabes. Acho que o que fizemos foi apenas dar um passo pelo direito de dirigir.
Sobre [a secretária de Estado dos EUA] Hillary Clinton, eu agradeço por falar sobre isso. O governo saudita tem de resolver essa questão internamente pelo bem da liberdade do povo deste país.
Eu não estava ansiosa por uma declaração dela, mas queria que os EUA não demorassem tanto para se pronunciar sobre esse problema. Não sou a favor de que os Estados Unidos intervenham como um governo, mas gostaria de ver o apoio das pessoas como um todo. Nós todos temos os mesmos direitos e necessidades básicas.
Gostaria de relembrar que sou apenas uma simpatizante dessa causa e dizer que a energia das mulheres é suprimida de muitas maneiras. Eu, como muçulmana, vejo toda a liberdade dos ensinamentos do islã, mas algumas pessoas entendem a religião de um jeito completamente errado.

FOLHA.com

Veja vídeo de Raniya dirigindo
folha.com/mu933253

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