segunda-feira, 13 de junho de 2011

Peru: pulando sobre o abismo


ENRIQUE AMAYO ZAVALLOS




Já se sabia como poderia ser um possível governo de Keiko Fujimori no Peru; no entanto, o eleito, Ollanta Humala, é uma incógnita para analistas


Abismo constituído por ações do governo peruano eleito em 2001, que gerariam instabilidade política, social e econômica.
Isso teria ocorrido caso Keiko Fujimori tivesse sido eleita no Peru, pois, para a maioria dos analistas, seu principal objetivo como presidente teria sido o de libertar o pai, Alberto Fujimori, e os membros de seu governo (1990-2000), que hoje estão presos por diversos crimes (o mais conhecido é Vladimiro Montesinos, ex-chefe da polícia secreta e mentor de Alberto).
Teria ocorrido, porque os desmandos cometidos por Alberto para se reeleger em 2000 deslancharam, apesar da repressão, mobilizações que terminaram com sua fuga para o Japão. O Peru ficou desestabilizado. Se Keiko libertasse o pai, geraria uma situação similar.
O círculo íntimo de Keiko era formado por membros do governo de Alberto. Seu candidato a vice-presidente, Rafael Rey, um congressista aliado dos dois mandatos de Alberto, declarou antes do segundo turno não saber se Vladimiro Montesinos era um assassino, pondo assim em dúvida as conclusões do Poder Judiciário do país.
O porta-voz de Keiko, Jorge Trelles, que tinha sido ministro do seu pai, foi afastado após declarar que o governo de Alberto matou menos que os anteriores. Portanto, os colaboradores de Keiko indicam que o seu governo teria sido parecido ao de seu pai, que levou o Peru a uma situação de caos.
Já se sabia como poderia ser um possível governo de Keiko; no entanto, o eleito, Ollanta Humala, é uma incógnita. Seus colaboradores não têm experiência de governo e, durante a campanha, ficou evidente que muitíssimos eleitores não votariam em Ollanta porque acreditavam que ele é próximo do bolivarianismo de Hugo Chávez.
Em 2006, quando foi candidato a presidente e perdeu para Alan García, Ollanta se mostrou pró-Chávez.
Porém, nestas eleições, fez de tudo para se afastar de Chávez. Seu afastamento pode ser real, pois Ollanta pode ter entendido que, no Peru, Chávez não tem boa imagem, muito menos o bolivarianismo.
Simon Bolívar, quando foi presidente vitalício do Peru (1823-26), consolidou a independência desse país, mas também reduziu sua extensão à metade, aceitando em 1825 a separação do Alto Peru, com o nome de República de Bolívar, o primeiro nome da Bolívia.
Segundo a imprensa, o pró-chavismo de Ollanta foi substituído pela aproximação com o Brasil do Partido dos Trabalhadores.
Aproximação significativa, já que os assessores de Ollanta nessa campanha foram os petistas Luis Favre e Valdemir Garreta. Na campanha, Ollanta se comprometeu a lutar contra a corrupção no Peru.
Por isso, analistas peruanos já se perguntam se tal proximidade poderá realmente ajudar nessa luta. A maioria no Peru votou pelo desconhecido contra o conhecido (52% por Ollanta e 48% por Keiko).
Se o Peru vai poder chegar são e salvo ao outro lado do abismo, isso dependerá das alianças e das decisões que Ollanta tomar.

Folha de São Paulo, 13/06/2011

ENRIQUE AMAYO ZEVALLOS, doutor e livre-docente, é professor de história econômica e de estudos internacionais latino-americanos da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

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