quinta-feira, 23 de junho de 2011

Militares são os grandes derrotados em decisão que privilegiou política e dinheiro

ANÁLISE
PATRÍCIA CAMPOS MELLO
DE SÃO PAULO

Ao anunciar uma retirada do Afeganistão mais rápida do que o esperado, o presidente Barack Obama se rendeu à pressão da população americana e do Orçamento dos EUA.
De olho na campanha para reeleição em 2012, ele decidiu ouvir as pesquisas de opinião e a gritaria sobre o tamanho do deficit americano, em vez de acolher as recomendações dos militares.
Segundo uma pesquisa do Pew Research Institute divulgada na segunda-feira, 56% dos americanos "acham que os EUA devem retirar suas tropas do Afeganistão o mais rápido possível."
Com a morte do líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, no dia 1º de maio, a guerra ficou ainda mais difícil de ser justificada. Até os republicanos, para os quais uma retirada rápida do Afeganistão sempre foi anátema, mudaram de lado.
Fora falcões como o senador John McCain, a maioria dos republicanos questiona os gastos do governo na guerra. Mitt Romney, presidenciável republicano que lidera as pesquisas, afirmou: "Nossas tropas não deveriam ficar travando uma luta pela independência de outro país".
Para completar, Obama está de olho na saúde da economia americana, o tema que realmente deve decidir a eleição de 2012.
O déficit público dos EUA está estimado em US$ 1,6 trilhão neste ano. A guerra no Afeganistão se tornou um alvo óbvio para cortes -ela custa US$ 110 bilhões por ano.
Os militares foram os grandes perdedores na decisão de Obama. O general David Petraeus, responsável pelas operações no Afeganistão, havia recomendado uma retirada muito mais gradual.
E, mesmo assim, a retirada mais acelerada não vai contentar muita gente.
Até o fim de setembro do ano que vem, sairão 33 mil soldados -o contingente que foi enviado por Obama durante a escalada de tropas ordenada por ele em 2009.
Restarão 68 mil militares no país. Isso é quase o dobro de soldados americanos que estavam no Afeganistão quando George W. Bush deixou o governo (36 mil).
O senador republicano Richard Lugar fustigou: deveríamos ter só operações de contraterrorismo na região e, para isso, não mais de 20 a 30 mil soldados são necessários.

Folha de São Paulo, 23/06/2011

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