segunda-feira, 20 de junho de 2011

Líder maoísta catalisa as atenções na sucessão chinesa


Adepto da "cultura vermelha" se destaca em processo de troca de dirigente


Chefe do Partido Comunista em Chongqing ganhou fama combatendo crime e erguendo casas

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A CHONGQING

A pouco mais de um ano da troca da dirigência máxima, o processo de sucessão chinês tem dois nomes certos ""o atual vice-presidente Xi Jinping como dirigente máximo e o vice-premiê Li Keqiang no cargo de premiê"" e um grande personagem: o "maoísta" Bo Xilai.
Chefe do Partido Comunista em Chongqing (1.450 km a sudoeste de Pequim), Bo Xilai, 61, ganhou enorme fama nos últimos anos no país pelo combate ao crime organizado (prendeu mais de 1.500 pessoas em quatro meses de 2009), pelo bom desempenho econômico, por investir em moradia e, principalmente, por promover um renascimento de práticas maoístas. A "cultura vermelha" de Bo inclui o trabalho "voluntário" de altos dirigentes do seu governo no campo, envios de slogans maoístas por celular e até um coro de crianças cantando músicas revolucionárias.
Em abril, Bo também demonstrou ser adepto de outra prática da era maoísta. O blogueiro Fang Hong, 45, um ex-membro do governo local, foi condenado a um ano de trabalho no campo três dias depois de ter publicado um comentário ironizando sua luta contra o crime organizado.
No campo econômico, Bo Xilai, ex-ministro do Comércio, fez Chongqing, a maior metrópole chinesa, com cerca de 30 milhões de habitantes, crescer 15% ao ano, acima da média do país. Principal pólo econômico longe da costa, tem atraído empresas como a Ford e a Foxconn por ter salários mais baixos.
"Chongqing é uma cidade enfocada em performance, não como outras cidades, que enfocam apenas em número do PIB. Chongqing tem velocidade e boa qualidade", disse Bo anteontem, na abertura de um fórum econômico.
A visibilidade de Bo Xilai reverte a tradição de políticos discretos que tem marcado a China desde a saída de cena de Deng Xiaoping. Para analistas, sua estratégia também pode lhe ser desfavorável.
"Ele administra Chongqing e projeta seu perfil de uma forma bem populista. Mas isso também tem feito as pessoas olharem para ele como alguém oportunista", afirma David Shambaugh, especialista em China da Universidade George Washington.
Dos nove membros do Comitê Permanente, ao menos cinco devem se aposentar por terem 70 anos ou mais. As substituições ocorrerão no 18º Congresso Nacional do PC, marcado para o outono (do hemisfério Norte) do ano que vem, com a presença de cerca de 2.000 delegados.
Desde que o PC assumiu o poder, em 1949, apenas a transição mais recente, a de Jiang Zemin para Hu Jintao, em 2002, não foi turbulenta.

Folha de São Paulo, 20/06/2011

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