quinta-feira, 9 de junho de 2011

Irã promete triplicar produção de urânio

País desafia restrições, mas volta a dizer que programa nuclear tem fins pacíficos; grandes potências veem "provocação"

Agência da ONU afirma que ficou sabendo dos planos iranianos pela imprensa; EUA pedem novas sanções a regime



Vahid Salemi - 21.ago.2010/Associated Press
Usina nuclear construída por iranianos em Bushehr (sul do país), área sujeita a tremores

DA REUTERS, EM TEERÃ

O Irã vai transferir sua produção de urânio de alto enriquecimento a um bunker subterrâneo e triplicar sua produção, anunciou Teerã na quarta-feira, em uma resposta desafiadora à acusações de que está tentando produzir bombas atômicas.
"Neste ano, sob a fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica, transferiremos o enriquecimento a 20% das instalações em Natanz para as de Fordow e elevaremos a capacidade de produção em três vezes", disse o diretor-geral da agência iraniana de energia atômica, Fereydoun Abbasi-Davani.
"Enriquecimento a 20%" refere-se ao processo pelo qual o urânio passa para ser aproveitado para fins médicos, mas que serve também à sua utilização em submarinos nucleares.
O Ocidente teme que o Irã use a tecnologia para fins não pacíficos; Teerã vem negando. As declarações de Abbasi-Davani foram divulgadas pela rede estatal de TV iraniana IRIB e provocaram imediatas críticas das grandes potências. O Ministério do Exterior francês divulgou comunicado em que chama o anúncio iraniano de "provocação".
"Isso reforça as preocupações existentes da comunidade internacional quanto à intransigência das autoridades iranianas e sua persistente violação das leis internacionais", afirma o texto.
O Conselho de Segurança da ONU já impôs uma série de sanções ao Irã em razão de seu programa nuclear. Só em setembro de 2009 o país revelou a existência do complexo de Fordow, em instalações subterrâneas nas montanhas próximas à cidade de Qom.
Os iranianos se viram forçados a confirmar relatos de serviços ocidentais de inteligência, que detectaram a existência do complexo e disseram ter indícios de atividades nucleares clandestinas.
Transferir a produção a Fordow conferiria proteção muito maior às delicadas centrífugas iranianas de purificação de urânio diante da ameaça de ataques aéreos americanos e israelenses.
A AIEA, agência da ONU para energia atômica, disse que só ficou sabendo do plano de triplicar a produção pela imprensa. "O Irã não nos informou sobre nenhuma decisão nesse sentido", declarou o porta-voz Gill Tudor.
A mídia iraniana retratou o anúncio como resposta desafiadora ao aperto nas sanções e à alegação da AIEA de que havia recebido novas informações quanto às possíveis dimensões nucleares do programa iraniano.
O presidente Mahmoud Ahmadinejad acusou a agência de agir sob as ordens dos EUA. Já o presidente americano, Barack Obama, disse que novas sanções a Teerã são prováveis.

TESTE NUCLEAR

Ontem, a Guarda Revolucionária do Irã publicou em seu site na internet um artigo elogiando a ideia de testar uma bomba nuclear no país.
Com o título "O dia depois do primeiro teste nuclear iraniano - um dia normal", o artigo preocupou as agências de inteligência do Ocidente.

Folha de São Paulo, 09/06/2011


Tradução de PAULO MIGLIACCI

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