quinta-feira, 16 de junho de 2011

FHC

KENNETH MAXWELL


É inteiramente correto que a presidente Dilma Rousseff tenha optado por congratular Fernando Henrique Cardoso em seu 80º aniversário.
Ao longo da última década, um dos pequenos dramas mais incômodos da política brasileira era o fato de que Lula jamais tenha conseguido se forçar a reconhecer a contribuição de FHC para a consolidação bem-sucedida da democracia e o sucesso econômico do Brasil, e que FHC, de sua parte, encontrasse pouco de positivo a dizer sobre Lula.
Felizmente, Dilma não se deixou apanhar no mesmo dilema, e isso é muito positivo. FHC se define como o "presidente acidental". De certa forma, é verdade. Itamar Franco, outro presidente "acidental" do Brasil, fez de FHC seu ministro da Fazenda.
Ele se cercou de economistas experientes, alguns dos melhores do Brasil, muitos dos quais envolvidos em tentativas anteriores e frustradas de controlar a inflação. Mas o plano de FHC funcionou. Ele matou a inflação. Em 1994, foi eleito presidente da República como resultado.
Os antecedentes de FHC eram incomuns para um presidente brasileiro. Ainda que sua família tivesse longa tradição de serviço nas Forças Armadas, ele era acadêmico, um sociólogo de renome mundial, muito conhecido e respeitado internacionalmente.
Embora nascido no Rio de Janeiro, fez sua carreira na Universidade de São Paulo, onde conheceu Ruth, também uma intelectual conhecida, com quem veio a se casar.
Professor universitário e marxista, FHC caiu em desgraça durante o regime militar, perdeu seu posto na USP e passou anos exilado no Chile, na França e nos EUA.
Ao voltar ao Brasil, construiu uma carreira que combinava ativismo político, ensino e pesquisa, e mobilizou apoio internacional, especialmente de fundações de caridade norte-americanas.
No governo, ele uniu diversas pessoas de talento notável. Homens como seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central Armínio Fraga. Os dois eram economistas experientes, com doutorados no exterior.
Ao contrário de Lula, FHC não é um "homem do povo".
Houve momentos em que isso lhe causou desvantagens.
Sua paciência sempre foi curta, um fato que ele tinha dificuldade para disfarçar, por exemplo em seus contatos com o presidente norte-americano George W. Bush. Não que alguém deva criticar a opinião de FHC sobre Bush. Mas deixar que ela transparecesse nunca foi muito diplomático.
É inegável, porém, que o Brasil se tornou um país muito melhor depois de seus dois mandatos como presidente, e Dilma está completamente certa em reconhecer o fato publicamente.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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