segunda-feira, 20 de junho de 2011

Desemprego americano é 'estrutural'

Analistas avaliam que taxa atual de 9,1% resistiria até a retomada da economia, dificultando reeleição de Obama

EUA terão de investir mais em treinamento de desempregados para que eles possam se recolocar no mercado

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
DE SÃO PAULO

Desde Franklin Delano Roosevelt, nenhum presidente americano conseguiu se reeleger quando a taxa de desemprego estava acima de 7,2% no dia da eleição. Isso é péssima notícia para o presidente Barack Obama.
A taxa de desemprego americana está em 9,1% e teima em não cair. E um número crescente de economistas fala em desemprego estrutural. Ou seja, mesmo se a economia reaquecer, a taxa não irá cair muito, porque parte desse desemprego se deve a causas estruturais.
Economistas mais ortodoxos acham que o desemprego não é cíclico, vinculado à desaceleração da economia. Estaria ligado ao descasamento de qualificações ""os desempregados não têm as qualificações que os empregadores querem; e não podem migrar para regiões onde há mais emprego, porque estão presos a suas hipotecas.
Até o ex-presidente Bill Clinton se juntou ao coro. "As pessoas não têm as qualificações exigidas nas vagas que estão se abrindo", disse.
Mark Lapolla, estrategista da Knight Capital Group, aponta para um fenômeno de mais longo prazo. Os setores que mais empregam, como manufatura, migraram para a China e outros países de mão-de-obra barata. Nos EUA, o que cresce são os setores calcados em propriedade intelectual, que empregam menos. A demanda por trabalhadores com menos qualificação vem caindo nos EUA há anos. "Vai levar mais de uma década para que consigamos reintegrar essas pessoas ao mercado de trabalho; para isso, alguma nova revolução, como foi a internet, terá de balançar a economia", disse Lapolla à Folha.
Para completar, a produtividade de vários setores cresce muito, então embora algumas empresas tenham voltado a crescer, não precisaram contratar na mesmo ritmo. Os economistas mais à direita vêm usando o desemprego estrutural como mais um argumento para pressionar o governo a cortar gastos.
A ala mais à esquerda, capitaneada pelo economista Paul Krugman, defende novos programas de estímulo. "Desemprego estrutural é um falso problema", disse Krugman. "O alto desemprego nos EUA é resultado de falta de demanda."
"Krugman acha que todo o problema pode ser resolvido com mais gastos do governo, mas os programas de estímulo que nós tivemos não ajudaram os desempregados", disse à Folha Tyler Cowen, autor do influente blog "Marginal revolution".
Cowen acha que o desemprego alto veio para ficar. Para ele, a nova taxa normal, que anteriormente era de cerca de 5% , será de 7% a 8%.
À esquerda e à direita, os economistas se unem em um diagnóstico: os EUA terão de investir mais em treinamento de desempregados, para que eles possam se recolocar. "O governo precisa adotar programas de vários anos para reestruturar o ensino e requalificar os trabalhadores", escreveu Mohamed El Erian, presidente do Pimco, um dos maiores administradores de fundos do mundo.
Folha de São Paulo, 20/09/2011

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