quarta-feira, 22 de junho de 2011

De Gaulle espionou JK

TENDÊNCIAS/DEBATES


RONALDO COSTA COUTO



Juscelino, em 1964, na cidade de Paris, vivia preocupado com espiões, microfones ocultos, fotos, grampos e violação de correspondência

Paris, 1964, escritório de Juscelino Kubitschek de Oliveira, referência democrática do Brasil, ex-presidente da República, exilado. Ele trabalha em suas memórias.
Ama a França, mas está triste e decepcionado. Sabe que é espionado pelo governo do general Charles de Gaulle. Teme ser ouvido e gravado. Veio em busca de liberdade, respeito e paz. Mas vive preocupado com espiões, microfones ocultos, grampos, fotos, violação de correspondência.
Um suplício! Levanta-se, abre a janela, pega o rádio, liga, sintoniza, aumenta o som e diz: "Preciso contar algumas coisas, Maria Alice".
A doce e culta Maria Alice Gomes Berengas, pequenina carioca da gema, hoje com 88 anos, foi amiga e secretária de JK no exílio. É testemunha e vítima da intromissão francesa, que atribui ao "Deuxième Bureau", serviço de inteligência.
Delírios anticomunistas da Guerra Fria? Conivência com a ditadura brasileira? Durante 46 anos ela guardou segredo do que viu, ouviu e sofreu ao lado de JK e depois.
No ano passado, em Paris, abriu a alma ao professor Carlos Alberto Antunes Maciel, da Universidade de Nantes, para um documentário sobre JK no exílio. Trecho: "Havia um prédio em frente, onde ficava um pessoal espiando a gente. Eram sempre os mesmos".
Infernizaram a vida de JK. Dele: "Era voltar ao Brasil ou meter uma bala no peito". Fecha o escritório, manda queimar os arquivos. Chega ao Rio logo depois das eleições de 3 de outubro de 1965, com a mulher, Sarah, e Maria Alice. Traz esperança na democratização.
Bem recebido pelo povo, é hostilizado pela ditadura. Policiado, perseguido e ameaçado, volta ao exílio no mês seguinte. Mas nunca mais Paris. Primeiro Nova York, em seguida Lisboa.
Maria Estela Kubitschek, em 25 de janeiro passado: "Papai nunca nos falou que era vigiado pelo "Deuxième Bureau". Quis poupar a família de mais sofrimentos". E a fiel Maria Alice?
Avisada de risco de prisão, recorre à Embaixada da França. Resultado: retêm seu passaporte francês.
Frustrada e assustada, consegue ajuda para se esconder no transatlântico Federico C e nele viajar.
Chegando à França, duros interrogatórios. Pergunto, em 2 de março de 2011: "O que queriam saber?".
Ela: "Coisas muito pessoais do presidente. Quem o visitara, o que dissera fulano ou beltrana. Eu dizia que não sabia, que não prestava atenção". Insinuaram que sua única filha, Nicole, de 9 anos, poderia sofrer um acidente.
Desesperada, levou-a de carro para Portugal. "Era muito mais importante a lealdade do que dar satisfação a essa gente. Depois de muito tempo, sumiram".
JK recebia figuras internacionais graúdas, como o argentino Juan Perón, o socialista francês François Mitterrand e líderes brasileiros como Miguel Arraes.
Prossigo: "Ele nunca foi envolvido em conspiração?".
Ela, veemente: "Nada! Dizia que revolução não é solução. Não admitia que se derramasse uma gota de sangue". Maria Alice vive perto de Lisboa. Tem muita saudade de dona Sarah e de JK.

Folha de São Paulo, 22/06/2011


RONALDO COSTA COUTO, escritor, doutor em história pela Sorbonne (França), foi ministro do Interior e ministro-chefe da Casa Civil (governo Sarney). É autor, entre outras obras, de "História Indiscreta da Ditadura e da Abertura" e de "Brasília Kubitschek de Oliveira".

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