domingo, 19 de junho de 2011

Confronto racha cúpula do governo iraniano

Presidente questiona autoridade do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei

Apesar de possibilidade de impeachment, analistas creem que Ahmadinejad concluirá mandato, evitando crise


Vahid Salemi - 3.jun.2011/Associated Press
Ahmadinejad discursa em frente a pôster do aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica do Irã (1979), em Teerã

NAJMEH BOZORGMEHR
DO "FINANCIAL TIMES"

Em discurso na televisão estatal, há um mês, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, devia explicar por que passara dez dias sem trabalhar ""ausência que até hoje alimenta especulações.
No lugar disso, apresentou cifras econômicas em tom positivo que acompanharam um discurso sobre o programa nuclear e contra Israel. Outro elemento foi o logotipo "ao vivo" na tela. A transmissão foi tudo menos isso.
O programa foi previamente gravado, para que o gabinete do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo e detentor da palavra final em todos assuntos, editasse o conteúdo. Esse processo é apenas uma das expressões da distribuição real do poder no Irã.
À primeira vista, o presidente e seu superior parecem estar em harmonia.
Mas alguns observadores políticos interpretaram o discurso ""e o fato de a transmissão não ter sido feita ao vivo"" como evidência de uma batalha política entre o presidente, ressentido de ser relegado ao papel de filho, e o líder supremo, que deve ser obedecido sem questionamentos.
"Há uma luta pelo poder em curso. É tão simples assim", diz Amir Mohebbian, analista político.
Por enquanto, o presidente está perdendo a batalha.
A disputa surgiu há dois meses, quando o presidente ignorou ordem de Khamenei para demitir o ministro da Inteligência, Heydar Moslehi.
Os fundamentalistas que se opõem a Ahmadinejad avaliam que ele não acredite na inviolabilidade da autoridade de Khamenei. Desconfiam que o presidente queira derrubar o aiatolá. É uma disputa envolta em teologia arcana. Aliados do aiatolá dizem que os assessores do presidente contrariam alguns ensinamentos do islã.
Há preocupações políticas. "Ahmadinejad quer manipular as eleições para ter maioria no Parlamento e a Presidência, algo que, para o líder, é inaceitável", disse um ex-funcionário do governo.
Poucos analistas preveem que esse desentendimento possa levar, no curto prazo, a qualquer colapso do regime.
Mas os rachas na hierarquia correm o risco de reduzir o círculo de políticos em quem o líder supremo confia.
Acredita-se que ele prefira que o fundamentalista Ahmadinejad conclua os dois anos de mandato que lhe restam, para mostrar estabilidade. E também para evitar uma mudança em um momento em que países da região enfrentam turbulências.
Folha de São Paulo, 19/06/2011
Ahmadinejad pode optar entre permanecer no poder sob condições ou levar adiante suas tentativas de ampliar sua influência, enfrentando o risco de impeachment. O presidente tem feito algumas concessões. Além de adotar uma postura de "silêncio para inspirar união", ele cedeu a pressões, abrindo mão do controle direto sobre o Ministério do Petróleo.
No palco internacional, as tensões domésticas vêm se fazendo sentir em uma retórica já conhecida, assertiva e não cooperativa: no velho discurso anti-Israel, além da promessa de triplicar o enriquecimento de urânio.
Essas posturas são vistas como um esforço de Ahmadinejad para voltar a ser indispensável para o aiatolá.
Mas o governo de Ahmadinejad também trouxe benefícios ao líder supremo.
Como diz um estudioso, "por vontade própria ou contra sua vontade, Ahmadinejad ajudou o líder supremo a tornar-se um imã, e isso é uma realização que já basta para o líder. Ele pode partir agora, se faz questão disso".

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