quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bênção

KENNETH MAXWELL

O diretor-gerente interino do Fundo Monetário Internacional (FMI), John Lipsky, esteve em Londres nesta semana. Ele pronunciou a avaliação anual do Fundo quanto à política macroeconômica do governo britânico. A conclusão foi: não é hora de mudar.
Isso não surpreendeu muita gente. O crescimento anda fraco. Os cortes nos serviços públicos só agora começaram a se fazer sentir. A recomendação do FMI foi basicamente a de manter o rumo. Caso necessário, afirmou o Fundo, pode haver um corte de impostos.
O governo de coalizão do Reino Unido, formado por conservadores e liberais democratas, ficou muito aliviado. Vem imputando a culpa por todos os seus problemas econômicos à administração trabalhista precedente.
Portugal também adotou um programa austero. A eleição geral do final de semana passado representou uma forte virada política à direita. Os socialistas perderam o poder e uma maioria conservadora foi eleita para substitui-los.
O novo primeiro-ministro será Pedro Passos Coelho, 46, que se criou em Angola. Ele voltou com sua família para a região de Trás-os-Montes, no norte do país, durante a caótica descolonização dos territórios portugueses na África, na metade dos anos 70.
Passos Coelho jamais exerceu um cargo público, mas tem um longo histórico de ativismo político como membro do Partido Social Democrata (PSD) e, aos 16 anos, foi líder da ala jovem da agremiação.
O PSD conquistou 40% dos votos. Os socialistas, comandados pelo primeiro-ministro José Sócrates, que está deixando o posto, ficaram com 28% dos votos. O Partido Popular (PP), de direita, obteve 16% dos votos e formará a coalizão governista com o PSD, como já havia feito anteriormente, entre 2002 e 2005.
A situação econômica portuguesa era muito mais grave que a britânica. Parecia mais com a da Irlanda, embora não fosse tão grave quanto a da Grécia. Irlanda, Grécia e agora Portugal se viram todos forçados a solicitar resgate por parte da zona do euro e do FMI, em montantes que hoje superam os 266 bilhões de euros.
Na metade de maio, Portugal fechou com a União Europeia e o FMI acordo para um pacote de resgate de 78 bilhões de euros (US$ 114 bilhões). Em troca, o país terá de realizar fortes cortes de gastos, elevar impostos, congelar as aposentadorias e os benefícios estatais e reduzir o salário-desemprego. A primeira parcela da assistência, no valor de 18 bilhões de euros, deve ser paga a Portugal nesta semana.
Essas medidas funcionarão? Portugal já enfrenta profunda recessão. O desemprego é de 12,4%. O Reino Unido está em situação melhor. Mas o sofrimento está apenas começando, tanto no Reino Unido quanto em Portugal.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha dce São Paulo
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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