domingo, 5 de junho de 2011

Arida versus Ustra

Ditadura

Em 1970, assim como Persio Arida, eu tinha 18 anos. Como ele, na mesma época, também passei pelo quartel da Barão de Mesquita, no Rio. Mas por razões diferentes das que lá o levaram, pois estava do outro lado.
Era cadete do primeiro ano da Academia Militar das Agulhas Negras. Como é tradição até os dias de hoje, depois da cerimônia de entrega do espadim aos cadetes do 1º ano há um baile de gala no Rio. Naquele ano, eu e um grupo de colegas cadetes fomos acomodados no quartel da PE da Barão de Mesquita.
Após o jantar, numa conversa surgiu o assunto tortura. Um colega disse que isso era mentira, que não ocorria.
Um tenente R-2, formado pelo Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, afirmou que existia tortura, sim, e que naquele momento estava ocorrendo ali no quartel. Convidou-nos a testemunhar a barbaridade. Eu e a maioria dos colegas declinamos do convite. Alguns aceitaram.
Ao final do ano letivo de 1970, desgostoso e desiludido com a carreira militar, pedi desligamento e fui cursar engenharia.
JOSÉ ROBERTO KACHEL DOS SANTOS (Mogi das Cruzes, SP)



Um equívoco bastante corrente é explicitado na carta do sr. Paulo M. Gomes Lustoza, no "Painel do Leitor" de ontem, sobre o "affair" Arida versus Ustra.
Está se tornando moda a suposição de que a esquerda no Brasil teria implantado uma ditadura cruel, à exemplo de Cuba, China e até Albânia. Isso justificaria as ações de tortura. O equívoco está justamente aí. É uma suposição -bastante provável, é verdade.
Mas nada justifica a barbárie.
Quanto à Comissão da Verdade, o sr. Paulo também se baseia em suposições ao dizer que apenas uma das partes será ouvida. É difícil lidar com a democracia. Dá trabalho. Mas é apenas assim que se constrói um verdadeiro Estado de Direito.
MARIA AMELIA DE O. NOGUEIRA (São Paulo, SP)

Seção de cartas da Folha de São Paulo, 05/06/2011

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