sábado, 11 de junho de 2011

Ahmadinejad e eu

MINHA HISTÓRIA SARAH SHOURD, 32

Presa no Irã por mais de um ano, acusada de espionagem, professora americana pede a libertação de seu noivo e de um amigo do casal, que continuam detidos , e elogia os esforços de mediação feitos pelo Brasil

RESUMO Há quase dois anos, a americana Sarah Shourd, 32, seu noivo e um amigo foram presos por autoridades iranianas acusados de espionagem.
Em 2010, com ajuda do Brasil, ela foi solta após pagar fiança de US$ 500 mil. Os outros jovens continuam presos; o caso inspirou campanha internacional. Em visita à Anistia Internacional em Londres, Shourd falou à Folha.

(...)Depoimento a
GABRIELA MANZINI
EM LONDRES

Eu vivia em Damasco havia mais de um ano, dando aulas para refugiados iraquianos que queriam fazer faculdade no Ocidente. Meu noivo, Shane Bauer, é jornalista e trabalhava na região havia quase uma década.
Fomos ao Oriente Médio por sermos pacifistas, contra as guerras no Iraque e no Afeganistão e a ocupação da Palestina. Meu amigo Josh Fattal foi nos visitar [em julho de 2009], e decidimos ir ao norte do Iraque, que poucos conhecem. Lá há muito verde, e não é zona de guerra.
Um dia, pegamos uma trilha. Talvez nosso único erro tenha sido nos divertir tanto que andamos demais.
Foi quando nos encontramos com soldados. Eles nos abordaram, mas não falavam árabe. Disseram: "Farsi". Foi o primeiro sinal de que estávamos perto do Irã.
Sabíamos que estávamos caminhando na direção do Irã, mas pensávamos que estávamos milhas distantes e que, se nos aproximássemos da fronteira, haveria placas.
Os soldados nos forçaram a entrar em seu jipe e dirigiram a esmo por dias, nos entregaram a diferentes pessoas. Estávamos apavorados. Eles dirigiram à noite, acionando armas. Tememos pelas nossas vidas.
Acabaram nos levando a Teerã e, até o último momento, disseram: "Nós os levaremos ao aeroporto, e vocês voltarão para Damasco, EUA, para onde quiserem".
Mas, em vez disso, nos levaram para a prisão e nos separaram. Gritávamos e tentávamos nos agarrar uns aos outros, mas não vi Shane e Josh de novo por meses.
Fomos sabatinados, também por meses. Um dia, o interrogador disse: "Sarah, o caso está suspenso. Ele se tornou político, e não faço ideia do que irá acontecer."
Foi um dos piores momentos da minha vida. Voltei à cela e perdi o controle. Chorei por dias. Tive ataques de raiva, a sensação de não poder nem falar com a minha mãe, com um advogado... eu dava socos nas paredes até minhas juntas sangrarem.

JULGAMENTOEm dezembro de 2009, os investigadores disseram: "Você irá a júri em breve e, depois, irá para casa".
Na primeira audiência, fomos formalmente acusados -eu, pouco antes de ser solta [em setembro de 2010]. Houve sessão em 6 de fevereiro, a última vez em que o mundo viu Shane e Josh.
Outra sessão ocorreria em 11 de maio, e nossa expectativa era alta porque disseram que, se houvesse provas, a Procuradoria iria apresentá-las. Como não há, esperávamos pelo fim do pesadelo. Mas o júri foi cancelado, e não soubemos de mais nada.
Há sempre a esperança de que a soltura humanitária seja iminente. Shane e Josh estão lá há 22 meses, e sua situação não mudou.
Mas não há transparência quanto ao que está ocorrendo, estamos só torcendo e rezando. O que dá sentido à minha vida é trabalhar por eles.
Eu me encontrei com [o presidente do Irã, Mahmoud] Ahmadinejad em Nova York, duas semanas após ser solta, e lhe entreguei um calhamaço de provas da nossa inocência. Ele disse esperar que eles fossem soltos em breve. Não houve resultados.

BRASILFoi maravilhoso conhecer o chanceler brasileiro [Celso Amorim, em 2009]. Ele disse que faria o que pudesse para defender nossa inocência. E que faria isso até que Shane e Josh estivessem em casa.
Quando estava na prisão no Irã e vi funcionários brasileiros se reunindo com iranianos, pensei: "Espero que estejam fazendo algo por nós". Pelo que sei, continuamos em contato com os brasileiros; eles fazem o possível.
Eu acho que o Brasil é visto como um país que pode ser mediador. Os EUA e o Irã não dialogam há 30 anos. Países mediadores são cruciais.

FOLHA.com

Saiba mais sobre o caso no site freethehikers.org

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