domingo, 29 de maio de 2011

Zelaya volta a Honduras no palanque

Deposto em 2009 e expulso do país, ex-presidente é saudado por multidão e promete levar "resistência" ao poder

Sem direito de tentar se reeleger em 2013, segundo a Carta do país, ex-mandatário articula candidatura da mulher


Eduardo Verdugo/Associated Press
O ex-presidente Manuel Zelaya acena com seu chapéu para participantes de ato de boas-vindas, ontem, em Tegucigalpa

FLÁVIA MARREIRO
ENVIADA ESPECIAL A TEGUCIGALPA

Quase dois anos depois de ser deposto da Presidência de Honduras, Manuel Zelaya foi recebido ontem por uma multidão de apoiadores em Tegucigalpa e prometeu levar "a resistência popular" ao comando do país.
Zelaya agradeceu o apoio dos países latino-americanos e ao atual governo de Honduras por "restituir seus direitos democráticos". Culpou os EUA pelo fracasso das negociações anteriores e anunciou que sua tarefa será organizar sua base política para promover uma Constituinte.
O ex-presidente voltou a partir de Manágua, num avião cedido pelo governo do venezuelano Hugo Chávez.
Zelaya tem o desafio de consolidar sua heterogênea base de apoio no país.
No aeroporto, era esperado por seguidores que usavam blusas e camisas da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP), criada pós-golpe, misturados a símbolos do Partido Liberal, a legenda original de Zelaya.
O ex-presidente agora se define "liberal pró-socialista em resistência". "Esperamos que Zelaya organize a resistência", disse o técnico em informática Douglas Sierra, 26, envolvido numa bandeira do Brasil. "Comprei para homenagear o apoio brasileiro a Mel [apelido de Zelaya]."
Em setembro de 2009, tentando forçar sua restituição ao poder, Zelaya refugiou-se na Embaixada brasileira em Manágua. Ficou lá por quase quatro meses até ir para o exílio na República Dominicana. A aposta da FNRP para seguir unida é intensificar a campanha para convocar uma Constituinte -ironicamente, um motivo alegado para o golpe contra Zelaya.
A possibilidade de propor uma consulta popular sobre mudança da Constituição -e sua posterior reforma total- foi viabilizada pelos atuais governo e Congresso e fez parte do acordo para a volta de ex-presidente, mediado pela Venezuela e Colômbia.
"O status quo hondurenho fez tudo para impedir qualquer mudança, motivado por uma paranoia anti-Hugo Chávez. Espero que tenham percebido que o desenho institucional de Honduras na atual Constituição foi uma das razões da crise de 2009", diz Kevin Casas-Zamora, ex-vice-presidente da Costa Rica e analista para a região do Brookings Institute (EUA).
Pela atual Carta, que veta a reeleição, Zelaya não poderá se candidatar às presidenciais de 2013. A ideia é lançar desde já a mulher do ex-presidente, Xiomara Castro, que foi uma das oradoras do evento de ontem.
Folha de São Paulo, 29/05/2011

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