quarta-feira, 18 de maio de 2011

A sucessão no FMI

Editoriais
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O escândalo sexual que ora envolve o diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, trouxe à tona mais uma vez, e com renovado fôlego, o debate sobre a divisão de poder nas principais instituições da governança global.
A cúpula das decisões planetárias ainda reflete a paisagem do final da Segunda Guerra Mundial. Há mais de 65 anos, portanto.
O FMI e o Banco Mundial foram concebidos na Conferência de Bretton Woods, em julho de 1944. Desde então, europeus sempre comandaram o primeiro, e norte-americanos, o segundo.
A Organização das Nações Unidas (ONU), onde o Brasil pleiteia com justeza um assento permanente no Conselho de Segurança, é outro exemplo de uma instituição que não se adaptou às transformações internacionais.
A disputa pelo comando do FMI ocorre em um momento delicado. O Fundo perdeu boa parte da importância que teve nas últimas décadas, quando desempenhava papel central no socorro a países atingidos pela sucessão de crises econômico-financeiras.
Os anos 2000 viram um salto imenso no fluxo global de capitais, que em 2006 atingiu US$ 7,2 trilhões, mais que o triplo de dez anos antes. A abundância de dinheiro e o boom econômico mundial pareciam relegar o Fundo a uma posição de irrelevância. Mas a crise econômica global que eclodiu em 2008 colocou o FMI mais uma vez no centro da arena.
Paradoxalmente, a crise que devolveu proeminência ao Fundo contribuiu para minar o sistema que mantém o controle das instituições globais nas mãos de europeus e norte-americanos.
Países emergentes, como o Brasil, utilizaram seu bom desempenho na crise -em que sofreram menos que as nações avançadas e serviram de esteio para manter a economia ativa- e passaram a cobrar espaço no núcleo de poder.
Os países em apuros, como não se cansou de assinalar o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora, são os ricos. O Brasil, de devedor do FMI, passou a credor.
A saída de Strauss-Kahn não depende mais de inocência ou culpa, uma vez que politicamente sua permanência se tornou insustentável. De qualquer modo, não iria cumprir os cinco anos de seu mandato, iniciado em novembro de 2007, pois alimentava desejo de candidatar-se à Presidência da França em abril do ano que vem.
A troca de chefia no Fundo será um teste para a nova correlação de forças global. Em vez do local de nascença, o critério de escolha de candidatos deveria ser o mérito.
Há bons nomes, dentro e fora da Europa, para comandar a instituição. Um processo aberto só vai fortalecer o FMI, nesta hora em que sua credibilidade está em jogo.

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