terça-feira, 31 de maio de 2011

Projeto europeu terminou, diz líder extremista francesa

Marine Le Pen, da Frente Nacional, defende que as fronteiras nacionais no continente sejam reforçadas

Candidata à Presidência francesa no ano que vem, ela critica elites pela reação na acusação contra Strauss-Kahn

ANA CAROLINA DANI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

Sensação da política francesa, Marine Le Pen, 42, da Frente Nacional, decreta, em entrevista à Folha: o grande projeto europeu acabou.
Candidata à Presidência em 2012 pela extrema direita, ela ganha impulso com as crises econômica, migratória e política no continente.
Analistas avaliam que Marine deve se beneficiar também da prisão do ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn, acusado de abuso sexual de uma camareira. Segundo ela, o caso demonstra a hipocrisia da elite francesa. Embora de fala mais suave que o pai, sua plataforma é semelhante: anti-imigração e contrária à globalização.

Folha - Como a sra. vê o caso Dominique Strauss-Kahn?
Marine Le Pen - Não sei o que foi mais humilhante para a França: a prisão ou a reação da classe politica francesa, particularmente inapropriada. Ninguém se pronunciou pela vítima. As reações demonstraram o reflexo da casta de elites que quer se proteger custe o que custar.

Por que a Frente Nacional vem subindo nas pesquisas?
Os franceses se dão conta de que 30 anos de política fizeram de um grande país um Estado à beira da falência. Nosso programa aparece aos franceses como uma verdadeira alternativa. A Frente Nacional mudou seus dirigentes. Durante muito tempo, meu pai foi caricaturado.

A imigração é um tema importante e central no programa da Frente Nacional. O que é a "preferência nacional"?
Priorizar quem tem a nacionalidade francesa no meu país, no acesso ao emprego, às moradias sociais. Que a solidariedade nacional seja reservada aos franceses, seja qual for a sua origem. Acho que é mais normal dar trabalho aos franceses que aos estrangeiros. Sem nenhum ódio contra os estrangeiros. Todos os estrangeiros que chegam à França devem poder se sustentar. Não temos mais os meios necessários para acolhê-los.

A senhora considera a imigração perigosa para a França? Não é uma questão de perigo. A imigração é muito dispendiosa. Pesa sobre o deficit publico, pois a escola e a saúde são totalmente gratuitas, fora os outros benefícios, como as moradias sociais.

A imigração legal deve ser regulada? Como?
Sim, temos que fazer uma moratória sobre a imigração. Nós acolhemos hoje 200 mil pessoas por ano e temos 5 milhões de desempregados. Isso é um absurdo absoluto. Temos cerca de 200 bilhões de deficit por ano e continuamos a importar desempregados, pois não há trabalho. Então, não é mais possível fazer viver a imigração pela solidariedade.

A Europa não deveria acolher, pelo menos provisoriamente, imigrantes que fogem do norte da África?
Por que a Europa? É muito mais normal que sejam os países árabes que acolham esses tunisianos ou líbios. Têm a mesma religião, a mesma língua, a mesma cultura. É muito menos perturbador para o mundo que esse fluxo seja feito com a ajuda financeira de países árabes, como as monarquias do petróleo, extremamente ricas. Não entendo por que é sempre à Europa que se pede ajuda, ainda mais com nossos países em falência. A grande Europa terminou.

A França deve sair do espaço Schengen [de livre circulação dentro da Europa]?
Sim. A Europa demonstrou que é incapaz de proteger suas fronteiras. E, além do mais, é uma questão de soberania nacional. Cada país tem o direito de decidir quem entra e quem sai.

A sra. é favorável a que a direção do FMI seja também ocupada por países não europeus, como pede o Brasil?
Claro. Aliás, defendo a supressão do FMI; mas, já que tem de ser dirigido, não vejo por que a direção tenha de ser reservada a europeus.

Brasil e Mercosul estão negociando um acordo de livre-comércio com a União Europeia. A França disse ter reservas. A senhora se opõe a ele?
Sim. Esse acordo vai matar a agricultura francesa e, como dirigente francesa, penso primeiro nos interesses do meu país. Não quer dizer que outros acordos não possam ser feitos. Sou a favor do protecionismo inteligente.

A Europa deve continuar a ajudar a Grécia?
Sou totalmente contra. É um trabalho de Sísifo. Estamos fazendo algo terrível, estamos esmagando um povo. Diminuímos os salários, as pensões, os levamos a vender seus patrimônios, e tudo isso para chegar aonde? Desamparamos o país e a população para que especuladores consigam ainda mais benefícios. É por isso que defendo a supressão do FMI; acredito que o Fundo participa da destruição desse povo. Hoje é a Grécia, amanhã será Portugal, depois a Espanha. O euro está morto. Chegamos ao fim do sistema. Quisemos dar o mesmo medicamento a todos os doentes e todos estão quebrando. A única possibilidade para a Grécia é abandonar o euro.

FOLHA.com
Leia a íntegra da entrevista
folha.com.br/mu923038

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