domingo, 1 de maio de 2011

Morre aos 99 o escritor argentino Ernesto Sabato

Ganhador do prêmio Miguel de Cervantes ficou debilitado após bronquite

Um dos nomes mais populares da literatura do país, autor esteve na primeira investigação de crimes da ditadura

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES
Morreu na madrugada de ontem, aos 99 anos, o escritor argentino Ernesto Sabato, um dos nomes mais populares da literatura do país.
"Há 15 dias ele teve uma bronquite que o debilitou muito, ele estava sofrendo há algum tempo. Mas ainda tinha momentos ótimos, principalmente quando escutava música", disse Elvira González Fraga, companheira do escritor, que vivia na cidade de Santos Lugares, nos arredores de Buenos Aires.
Nascido em Rojas, o escritor e ensaísta teve seu nome marcado na história política do país por seu trabalho na área de direitos humanos.
A pedido do então presidente Raúl Alfonsín, ele presidiu entre 1983 e 1984 a Conadep (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas), a primeira investigação sobre a última e brutal ditadura militar (1976-83).
Esse trabalho, conhecido como "relatório Sabato", resultou no livro "Nunca Mais" (1984), que narra o modus operandi da repressão e levanta a morte e desaparecimento de 30 mil pessoas.
A investigação abriu caminho para o julgamento de militares que cometeram crimes no período.
Logo após esse trabalho, ainda em 1984, Ernesto Sabato recebeu o Miguel de Cervantes, um dos maiores prêmios literários da língua espanhola. Ele foi o segundo escritor argentino a receber o título, depois de outro grande, Jorge Luis Borges.
Dentre os livros mais célebres, estão "Sobre Heróis e Tumbas" (1961), os livros "O Túnel" (1948) e "Abbadon, o Exterminador" (1974).
Apesar do sucesso literário -sua obra marcou principalmente a geração dos anos 60 e 70-, Sabato não se considerava um escritor de ofício.
"Nunca me considerei um escritor profissional, dos que publicam um romance por ano", disse numa antiga entrevista. Era formado em física, profissão que abandonou ainda nos anos 40.
Os últimos trabalhos do autor argentino, que também pintava, incluem memórias e crônicas sobre a velhice.
Por causa da idade, segundo o filho Mario, autor de um documentário sobre o pai, Sabato já não saia de casa, falava muito pouco e vivia sob cuidado de enfermeiras.
Hoje, o escritor seria homenageado na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires por seu centenário, em 24 de junho.
Folha de São Paulo, 01/05/2011

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