domingo, 29 de maio de 2011

Memória e justiça

Editoriais
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A captura do ex-general sérvio Ratko Mladic, por atrocidades cometidas na Guerra da Bósnia (1992-95), encerra o capítulo de um dos grandes fracassos da comunidade internacional na última década do século 20.
A pior das atrocidades que levaram à tardia prisão de Mladic, o massacre de Srebrenica em julho de 1995, representou o maior derramamento de sangue em solo europeu desde o final da Segunda Guerra Mundial, 50 anos antes.
O extermínio de 8.000 homens e meninos bósnios-muçulmanos deu-se em um campo de refugiados sob proteção das Nações Unidas. Ironicamente, o local era chamado de "porto seguro".
As forças lideradas por Mladic subjugaram os pouco mais de 300 soldados holandeses, incapazes de impor resistência séria diante da superioridade sérvia. Por três dias, transformaram os arredores em campos de morte. Só quando a dimensão da matança em Srebrenica emergiu de forma clara o Ocidente engajou-se de modo decisivo para pôr fim ao conflito.
A falha na defesa dos refugiados sob proteção das Nações Unidas foi agora em parte redimida, com o perpetrador das atrocidades levado finalmente à Justiça. O líder político dos sérvios-bósnios e principal aliado civil de Mladic, Radovan Karadzic, já havia sido preso em 2008. O chefe de ambos, o então presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic, morreu em 2006, enquanto aguardava para ser julgado em Haia.
O desfecho desse período tenebroso da história dos Bálcãs leva a uma diminuição do isolamento internacional da Sérvia. Abre, assim, caminho para a futura adesão do país à União Europeia (UE).
Não se deve supor, entretanto, que a prisão de Mladic vá trazer imediata reconciliação do país com a Europa e o restante do mundo. A questão de Kosovo, que declarou independência unilateralmente em 2008, ainda segue longe de ser resolvida, apesar de negociações em andamento.
A esperança do governo sérvio agora é obter o status oficial de candidato a país-membro da UE, o que pode ocorrer em dezembro. Para além do passo simbólico, isso não indica que a entrada do país no bloco político-econômico esteja próxima.
É sempre recompensador quando um genocida é levado à Justiça, não importa o tempo decorrido. A prisão de Mladic deve ser louvada. Seus crimes e a inoperância da comunidade internacional no episódio, contudo, não podem ser olvidados, sob pena de repetição.
Folha de São Paulo, 29/05/2011

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