domingo, 8 de maio de 2011

Guerra ao Terror continua, mas adota versão mais enxuta

ANÁLISE

LUCIANA COELHO
EM BOSTON

Por mais que a morte de Osama bin Laden deixe no governo dos Estados Unidos a sensação de missão cumprida, não há sinal de que ela enterre a Guerra ao Terror, parida pelo governo Bush à luz do 11 de Setembro e batizada para dar elasticidade moral a seus combates.
Tanto a Casa Branca quanto a CIA apressaram-se em dizer que a ameaça persiste. Que há risco de retaliação. Que outros grupos preocupam os Estados Unidos. E que a retirada do Afeganistão não será acelerada.
É verdade que os terroristas do mundo não se autopulverizaram com a morte de Bin Laden, assim como não nasceram com a Al Qaeda (embora o estilo franquia da rede tenha inovado na proporção global de suas ações).
Mas haverá ainda respaldo legal para agir em nome da Guerra ao Terror, uma vez que o homem que a motivou está morto?
Analistas políticos e militares ouvidos pela Folha acham que a retórica americana não mudará.
Há sinais. O apoio popular a Barack Obama saltou ao menos seis pontos com o episódio, conforme pesquisas.
Seu secretário da Justiça, Eric Holder, não perdeu a deixa para pedir a continuidade do Ato Patriota, as leis de exceção criadas para a Guerra ao Terror, a base do controverso legado de Bush.
Os grupos-satélites da Al Qaeda seguem ativos e estão mapeados pelos EUA: Al Qaeda na Península Arábica; Al Qaeda no Magreb; Al Shabab, na Somália.
O cenário, porém, é diferente. O corte nos gastos de defesa (US$ 400 bilhões até 2023, na prancheta de Obama) e o maior foco em ações de inteligência que deve ser consolidado após a operação Bin Laden deixam pouco terreno para guerras espetaculosas como as do Iraque e do Afeganistão.
Já os grupos-herdeiros oferecem ameaça, mas são menores e exigem ação mais infiltrada. O apoio do público e o respaldo internacional também podem titubear, passado o alívio inicial.
E, se antes Obama era visto como frouxo em termos de segurança, hoje sua imagem foi revista, como lembrou a jornalistas em Harvard David Gergen, um veterano de quatro governos americanos.
É como se ele tivesse passado no teste. É como se, como lembrou David Rothkopf na "Foreign Affairs", o momento mais "bushístico" do presidente lhe desse espaço para ser Obama. Mesmo sem mudar a retórica.
A Guerra ao Terror não morre com Bin Laden -mas talvez ela reencarne em uma versão mais enxuta.

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