sábado, 21 de maio de 2011

"Foi certo matar Osama e esconder fotos"

Em debate no auditório da Folha, jornalista americano Jon Lee Anderson compara Primavera Árabe aos anos 60

Veterano repórter de guerra afirmou ainda que a reportagem mais perigosa que fez foi no Rio de Janeiro, há 2 anos


DE SÃO PAULO

O jornalista americano Jon Lee Anderson, 54, repórter da revista "New Yorker", afirma que, mesmo antes da morte de Osama bin Laden, formas mais convencionais de protesto no mundo árabe já tinham mais importância do que o terrorismo.
Ele cita o uso de Facebook e Twitter na Primavera Árabe, sobretudo por jovens.
Anderson participou de debate ontem no auditório da Folha. Ele veio ao Brasil para participar do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural.




AÇÃO POLÊMICA
Não sei se jogaram o corpo de Bin Laden no mar. Eu esperava a divulgação das fotos.
Obama tinha medo que pudessem inflamar a opinião pública naquela parte do mundo. Por outro lado, se o corpo estivesse em bom estado, poderia parecer uma coisa angelical, perpetuando o mito da invencibilidade. Acho que, um dia, acabaremos vendo as fotos.

O FIM DO MITO
A morte de Bin Laden remove a sua aura de invencibilidade. O que ele fez no 11 de Setembro foi uma coisa inconcebível, de ficção científica, como se tudo fosse possível.
E o fato de ninguém ter conseguido pegá-lo em dez anos reforçou essa imagem de invencibilidade e a ideia de que os EUA e aliados eram fracos.
Do ponto de vista dos inimigos de Bin Laden, era a decisão certa de matá-lo e de não mostrar as fotos.

CONTRA O APELO À MORTE
A mensagem de Bin Laden tinha a ver com morte. Mas o mundo islâmico evoluiu.
Se a ideia jihadista pode ter parecido atrativa nas semanas ou meses que seguiram o 11 de Setembro, por ter deixado de joelhos a superpotência, os anos seguintes de tristeza e sangue, conjugados à resposta duríssima, só trouxeram mais morte.
Para a geração de crianças que hoje têm 20 anos de idade e na época tinham 10 anos, o atual momento mostra que revoltas mais convencionais obtêm melhor resultado. A mensagem de Al Jazeera, Twitter e Facebook aponta para um futuro de vida em vez de morte.

REVOLTA ÁRABES
As pessoas comparam a Primavera Árabe ao colapso da União Soviética, mas eu prefiro fazer um paralelo com as revoltas dos anos 60 no Ocidente. São processos conduzidos pelos jovens, que perderam o medo.
Por anos, europeus e americanos tomaram as ruas para protestar contra a guerra, o racismo, o status quo. O sul dos EUA nos anos 60 se parecia com a África do Sul sob o apartheid. A polícia matava quem ousava se opor ao sistema. Tudo estava interligado, os direitos civis, a emancipação das mulheres etc..
No mundo árabe, as pessoas olham para os ditadores e dizem: "quem é você para nos dizer o que fazer? Meu pai aceitou viver com você, mas por que eu deveria? E ainda por cima você roubou todo o dinheiro do meu país e a sua polícia está nos matando".

LUGAR MAIS PERIGOSO
A coisa mais perigosa que fiz em muito tempo foi escrever sobre o Rio. Muito mais arriscado do que a Líbia.
Em 1997, fui convidado por um urbanista a visitar uma favela. Ele me mostrou uma passarela recém-construída ligando o morro e o asfalto.
Na visita, percebi que estava pisando em poças de sangue. Haviam acabado de matar um informante e arrastado seu corpo pela nova passarela. Pensei: que lugar é esse?
Voltei ao Rio dois anos atrás com um amigo fotógrafo para fazer uma reportagem no morro do Dendê.
Nosso contato era um pastor que conhecia gente no tráfico. Mas o pastor tinha brigado com um traficante que queria se converter mas havia descumprido a promessa de não decapitar mais pessoas.
Por isso, o pastor acabou me deixando ir sozinho. Era um moleque coberto de ouro, e a conversa começou com ele me perguntando se deveria contar à mulher que tinha engravidado outra. Precisei voltar outras vezes à favela, mas passei por situações tão tensas que não fui mais.

RAIO-X JON LEE ANDERSON
VIDA
Nasceu em 1957, na Califórnia, EUA. Viveu na Coreia do Sul, Colômbia, Indonésia, Libéria e Reino Unido. Atualmente, vive em Dorset, na Inglaterra, com mulher e três filhos

CARREIRA
Escreve para a "New Yorker", desde 1998. Fez reportagens no Iraque e cobriu conflitos no Afeganistão, Angola, Uganda, Israel, Líbano, entre outros. Começou como repórter em 1979 no "Lima Times", no Peru. Nos anos 80, cobriu a América Latina para a "Time"

PRINCIPAIS OBRAS
"A Queda de Bagdá" , "Che Guevara" (Editora Objetiva), "The Lion's Grave: Dispatches From Afghanistan" (Grove Press) e "Guerrillas: Journeys In the Insurgent World" (Penguin Books)

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