segunda-feira, 9 de maio de 2011

Festejos à morte de Bin Laden me dão vergonha de ser norte-americano

OPINIÃO O FIM DA CAÇADA
Os que aplaudiram a morte desse inimigo teriam tido outra conduta se lembrassem das lições de Nuremberg



MESMO OS MAIS MALIGNOS ENTRE NÓS DEIXAMOS PARA TRÁS ALGUÉM QUE CHORA POR NOSSA MORTE

MICHAEL KEPP
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Assistir às imagens de multidões festejando a morte de Osama bin Laden diante da Casa Branca me fez sentir vergonha de ser americano. A morte de qualquer pessoa deveria ser algo sério, que nos leva a fazer uma pausa para refletir. No entanto, o assassinato de Bin Laden trouxe uma sensação de ponto final para as famílias das mais de 3.000 pessoas cujas mortes ele ordenou. E as famílias têm o direito de sentir alívio e catarse. É o que frequentemente sente quem assiste à execução de um prisioneiro condenado por matar membros de sua família. Mas ele não deveria gritar palavras sanguinárias quando o corpo do executado para de se mexer. Talvez o que torne a morte uma ocasião tão solene é que mesmo os mais malignos entre nós deixamos para trás alguém que chora nossa morte. Logo, foi apropriado Obama falar em tom solene ao anunciar a morte de Bin Laden. Mas será que foi honesto dizer que "justiça foi feita"? Nos EUA, a justiça é feita quando uma pessoa é levada a julgamento, não quando uma pessoa desarmada que não estava resistindo à prisão é executada sumariamente, que, aparentemente, é como Bin Laden morreu. A equipe militar que o executou provavelmente recebera ordens de trazê-lo de volta morto, e não vivo. Mas por quê? Os julgamentos de Nuremberg levaram líderes nazistas à justiça, em lugar de serem executados sumariamente, e, assim, enobreceram as forças armadas. Esses julgamentos disseram ao mundo: "Nós temos os princípios que faltam a vocês, criminosos de guerra". Ao levar Bin Laden a julgamento, os EUA poderiam ter transmitido a mesma mensagem, e não uma que diz "execução sem julgamento pode ser chamada de justiça". Os EUA poderiam ter julgado Bin Laden em Guantánamo, onde mantêm encarcerado Khalid Sheikh Mohammed -o alegado arquiteto operacional do 11 de Setembro, cujos ataques mataram milhares de civis inocentes-, que será julgado ali. Imagino que os EUA tenham decidido que matar Bin Laden seria mais fácil. É por isso que Obama ordenou que aviões não tripulados executassem outros membros da Al Qaeda, até mesmo o clérigo radical Anwar Al Awlaki, cidadão americano. O presidente Obama agora parece ser um líder ousado e corajoso, porque autorizou uma missão de combate arriscada que eliminou o pior inimigo de seu país desde Hitler. Para mim, porém, ele e os americanos que aplaudiram a morte desse inimigo poderiam ter agido de maneira mais pautada por princípios se tivessem se lembrado das lições de Nuremberg.

MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 28 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque" (ed. Record)

Tradução de Clara Allain

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