terça-feira, 10 de maio de 2011

Dilma e Chávez

ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - Pela praxe, com algumas exceções, presidentes oferecem almoço a chefes de Estado no Itamaraty, com registro da imprensa. Dilma, porém, preferiu receber o venezuelano Hugo Chávez no Alvorada, hoje, discretamente.
Há diferentes leituras. A mais simplória é que Dilma ainda convalesce da pneumonia e prefere um ambiente mais reservado. Outra é que ela quis dar um caráter de trabalho à visita, sem badalações. Uma terceira é justamente o oposto: seu objetivo foi mostrar o quanto Chávez "é de casa".
Essas elucubrações em torno de algo aparentemente banal -banquete no Itamaraty ou almoço no Alvorada- fazem sentido num momento em que qualquer nuance se transforma em indício de que há algo de novo no reino da política externa. Primeiro, Dilma condenando a pena de apedrejamento de Sakineh no Irã. Depois, os votos brasileiros nos foros internacionais de direitos humanos. Por fim, a discrição da presidente e do seu governo diante da eleição no Peru.
Quando se fala de país a país, não há o que mexer nas relações com a Venezuela, grande produtora de petróleo, cheia de dinheiro, cheia de necessidades e sem indústrias. Conveniente.
O comércio bilateral foi de US$ 4,7 bi em 2010, e a Venezuela foi responsável por expressivos 15% do superavit global do Brasil. Além disso, as empresas brasileiras, à frente as grandes empreiteiras, já têm uma carteira de investimentos de US$ 20 bi no país de Chávez.
O importante é manter as relações com o país sem se enroscar excessivamente com Chávez, como faziam próceres do governo Lula. Estado é Estado, partido é partido. Invertendo a velha história, negócios, negócios, amizade à parte.
Dilma e Chávez, eis a questão. Se algo mudar na relação com Chávez, isso pode servir como aperitivo para o que poderá mudar também com Cuba. Ou melhor, com os irmãos Fidel e Raúl Castro.

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