segunda-feira, 9 de maio de 2011

A Al Qaeda no Iêmen é o próximo alvo americano

ENTREVISTA DA SEGUNDA STEVE CLEMONS
PESQUISADOR DO NEW AMERICA FOUNDATION ESTIMA QUE NÃO HAVERÁ MUDANÇAS NA POLÍTICA EXTERNA DOS EUA QUANTO AO TERRORISMO, MESMO APÓS A ELIMINAÇÃO DE OSAMA BIN LADEN

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
DE SÃO PAULO

Apesar da morte de Osama bin Laden, a política externa americana não vai ter uma grande mudança no curto prazo -os EUA vão continuar focados na luta contra o terrorismo, agora em países como Iêmen e Somália.
Essa é a opinião de Steve Clemons, pesquisador sênior do New America Foundation e autor do influente blog de política externa Washington Note.
"Há muita gente interessada em manter ativo o jogo contra o terrorismo; nós nos acostumamos a ver o terrorismo como a causa de muitas coisas e já vemos Al Awalaki e a Al Qaeda no Iêmen se transformando nos próximos grandes vilões", diz Clemons, referindo-se a Anwar Al Alwalaki, o líder islâmico terrorista baseado no Iêmen.
Abaixo, trechos da entrevista que Clemons concedeu, por telefone, à Folha.

 

Folha - O que muda no curto prazo no mundo pós-Bin Laden?
Steve Clemons
- No curto prazo, não muda muita coisa. Vai ser difícil o governo americano mudar rapidamente a direção de sua política, e eles devem aproveitar as informações coletadas no esconderijo de Bin Laden para ir atrás de Al Zawahiri (Ayman Al Zawahiri, que era o segundo homem da Al Qaeda e agora é o único líder restante) e outros integrantes do alto escalão da Al Qaeda.
Com a morte de Bin Laden, vejo nossos interesses se voltando para o Iêmen, a Somália e outros países onde ainda há células do grupo.
Muita gente acha que a morte de Bin Laden, automaticamente, vai levar a uma redução de tropas no Afeganistão, mas eu não acho que isso vá se dar rapidamente.

A morte de Bin Laden reforça a visão de que ataques cirúrgicos, com aeronaves não tripuladas e uso de inteligência, são mais eficientes do que grande presença de tropas e construção de nação?
Acho que sim, as repercussões negativas do uso de grandes contingentes militares ficaram claras, e os EUA estão levando em conta o peso disso no orçamento.

O sr. também menciona que, mais do que desbaratar a rede terrorista, a morte de Bin Laden foi importante para a autoestima americana...
Sim. Nós gastamos mais de US$ 2 trilhões desde os ataques de 11 de setembro de 2001, muito acima de nosso orçamento normal de Defesa, mandamos centenas de milhares de soldados para duas guerras, e milhares deles foram mortos.
A noção de que a maior potência militar do mundo não conseguia pegar Bin Laden criou uma necessidade psicológica de compensar com exageros no orçamento militar e no envio de tropas. Tudo tem sido muito anormal.
Portanto, tirar do cenário Bin Laden, o superstar do terrorismo internacional, nos permite chegar a um esquema melhor de custo-benefício e não mais compensar por não conseguirmos acabar com Bin Laden. Isso pode, inclusive, nos ajudar a reduzir o orçamento militar.

A política externa vai privilegiar Somália e Iêmen?
Sim, em franquias da Al Qaeda e outros grupos terroristas. Agora que Bin Laden se foi, vamos ver outros terroristas ganharem proeminência. Não porque eles sejam mais perigosos, mas porque nós temos essa necessidade de ter um grupo terrorista por aí, para focarmos ele.

Por quê?
É a maneira pela qual o governo americano é organizado. Há muita gente interessada em manter ativo o jogo contra o terrorismo.
Nós nos acostumamos a ver o terrorismo como a causa de muitas coisas e já vemos Al Awalaki e a Al Qaeda no Iêmen se transformando nos próximos grandes vilões.

Os EUA negligenciaram a ascensão da Ásia e estratégias para lidar com a China. Isso vai mudar?
Nós temos uma política de distração. Alguns anos atrás, estive em Pequim conversando com o chefe de políticas do ministério de Relações Exteriores e perguntei a ele qual era a grande estratégia da China.
Ele brincou: "Manter os americanos distraídos em pequenos países do Oriente Médio".
A China não é inimiga, mas é sério concorrente global. Eu não acho que isso vá mudar. Depois do Afeganistão, ficamos absortos com a Primavera Árabe; depois do Egito, veio a Líbia, e assim vai ser, é uma política sempre de reação aos acontecimentos, não há estratégia.

Como vai evoluir a relação com o Paquistão?
Vai ficar cada vez mais complicada. O Paquistão é nosso melhor "frenemy" (palavra em inglês que pode ser traduzida como amigo que é também inimigo).
Enquanto estivermos no Afeganistão, não podemos nos divorciar do Paquistão, porque eles detêm muitos gargalos logísticos e políticos nessa guerra.
Mas eu acho que muitos no Congresso vão exigir uma redução dos recursos que os EUA dão para o Paquistão e maior prestação de contas, e o Paquistão vai reclamar e nos chantagear.

A morte de Bin Laden causa um efeito apenas de curto prazo sobre a popularidade do presidente Obama?
Não sei se o efeito é duradouro, mas é fato que ele eliminou um ponto fraco que poderia ser alvo de ataque dos republicanos em 2012.
Acho que esses analistas dizendo que é a economia que vai decidir a eleição de 2012 são ridículos, isso é especulação sem fundamento.
Estamos a um ano da eleição, não sabemos se vai haver outro atentado terrorista ou até mesmo guerra. Seis meses atrás, por exemplo, o principal assunto no país era o desastre da British Petroleum no Golfo do México.
FRASES
"A noção de que a maior potência militar do mundo não conseguia pegar Bin Laden criou uma necessidade psicológica de compensar [tal incapacidade] com exageros no orçamento militar e no envio de tropas"

"Agora que Bin Laden se foi, vamos ver outros terroristas ganharem proeminência. Nós temos necessidade de ter um grupo terrorista por aí, para focarmos nele. É a maneira pela qual o governo americano é organizado"
RAIO-X STEVE CLEMONS
QUEM É?
Pesquisador sênior do programa de Estratégia Americana do think tank (centro de estudos) New America Foundation e autor do influente blog de política externa Washington Note

CURRÍCULO
Ocupou a vice-presidência do Instituto de Estratégia Econômica, além de atuar como assessor de política internacional do senador democrata Jeff Bingaman e como diretor-executivo do Nixon Center

Nenhum comentário: