domingo, 17 de abril de 2011

Transição deve piorar condições dos cubanos, ao menos no início

ANÁLISE


ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO

Em Cuba, espera-se uma transição de um modelo econômico centralizado para outro de economia mista em que o Estado ainda está no comando, mas o setor privado ganha maior relevância.
Investidores de fora tendem a se interessar pela combinação de vastos recursos naturais e mão de obra educada que o país oferece.
Desde o colapso do socialismo, Cuba não é uma ilha apenas em termos geográficos. Ao rejeitar o caminho de transição trilhado por outros países do bloco soviético, tornou-se uma espécie de bastião do antigo regime.
Por um bom período, os resultados econômicos do país -mesmo com o bloqueio dos EUA e o repentino corte da ajuda da ex-União Soviética- surpreenderam.
Passados os anos iniciais de forte contração da economia no início da década de 90, o país passou por um período de recuperação.
Entre 1995 e 2008, a economia cresceu a uma taxa média anual de 5,3%, bem acima dos cerca de 3% registrados pela América Latina.
Investimentos em poucos setores, como turismo, mineração e serviços médicos, algumas alianças com empresas estrangeiras e parcerias comerciais com a Venezuela de Hugo Chávez explicam esse desempenho. A demanda asiática por commodities também contribuiu.
Mas o crescimento do período não foi suficiente para elevar o nível de vida da população ao patamar da década de 80. E, nos últimos anos, ficou claro que o ritmo de expansão perdia fôlego. Em 2010, Cuba cresceu cerca de 2%, um terço dos 6% de expansão da América Latina.
O regime centralizador castrista gerou distorções que se tornaram insustentáveis. O setor público inchou em demasia. O anúncio, feito no ano passado, da intenção de eliminar mais de 1 milhão de empregos no médio prazo comprova isso.
O plano de Castro para realocar esse enorme contingente de futuros desempregados e atrair quem opera no mercado negro para a formalidade deverá ser detalhado durante o congresso.
Espera-se uma abertura gradual e controlada. Mas o ajuste inicial tende a ser custoso. O necessário desmantelamento de inúmeros controles de preços e subsídios deve, por exemplo, elevar o custo de vida.
O governo, de certa forma, tem reconhecido isso. O "igualitarismo" deu lugar a "igualdade de oportunidades" no discurso oficial.
Folha de São Paulo, 17/04/2011

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