domingo, 17 de abril de 2011

"Soubemos ali que nosso povo estava preparado, como está"

DEPOIMENTO O VENCEDOR


DA ENVIADA A HAVANA

Victor Dreke, 74, lutou sob comando de Che Guevara em Sierra Maestra e, em 1965, na campanha do Congo. É ex-integrante do comitê central do Partido Comunista. (FM)

 

"O 16 de abril foi muito tenso. Um dia antes, houve o bombardeio dos aeroportos, e então Fidel declarou o caráter socialista da revolução.
Eu era capitão do Exército rebelde. Comandava 150 homens das milícias. Estava longe, no norte, e o desembarque foi no sul. Não sabíamos onde ia ser. Raúl [Castro] estava no Oriente. Che Guevara em Pinar del Río. Fidel estava em Havana, mas foi para Praia Girón, de onde comandou o contra-ataque.
Mas a ordem era ir para lá. No dia 17, o povo de Cuba se mobilizou. As pessoas na rua gritavam contra os mercenários. Não sabíamos o que nos esperava, mas Fidel nos havia preparado para a luta irregular. Voltaríamos às montanhas se fosse necessário.
Foram 66 horas de batalha para eliminar a "cabeça de praia" -queriam tomar parte do território, montar governo provisório. Fui ferido na perna e no braço. Lutei na Sierra Maestra e em Praia Girón.
O plano deles era bem-feito, mas erraram ao esperar que haveria reação popular a seu favor. Pensavam que estávamos desarmados. Soubemos ali que nosso povo estava preparado -como está.
Na verdade, queria ser jornalista, e não militar. Foi a tirania de Batista que me levou, aos 14 anos, à luta armada. Eu e a maioria dos cubanos tínhamos fobia dos militares, que maltratavam o povo, batiam nas pessoas, tiravam dinheiro dos pobres.
Se me arrependo da dureza da guerra e dos tribunais revolucionários [com fuzilamentos]? Foram imprescindíveis. Fui promotor dos tribunais. Eles evitaram que acontecesse em Cuba o que houve em outros países. Ao triunfar a revolução, o povo fez justiça com as mãos.
Os 20 mil mártires [do regime de Batista] tinham pessoas por trás, filhos, familiares [que buscariam fazer justiça]. Não tenho vergonha. Assumo minha responsabilidade histórica diante do mundo. Tem gente que se deita e não consegue dormir. Já eu durmo bem, tranquilo.
Os meus netos vão viver no socialismo. Não creio que deixem Cuba, não creio que Cuba deixe o socialismo."
Folha de São Paulo, 17/04/2011

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