domingo, 17 de abril de 2011

"Seus autores subestimaram a capacidade de Fidel Castro"

DEPOIMENTO O DERROTADO


DA ENVIADA A HAVANA

Francisco Pepe Hernández, 70 anos, é o presidente da Fundação Nacional Cubano-Americana, um dos mais influentes grupos de exilados cubanos nos EUA. (FM)

 

"Num 13 de abril como esse, há 50 anos, deixamos o acampamento nas montanhas na Guatemala, onde recebemos treinamento [da CIA]. Eu tinha 20 anos.
Recebi treinamento por quatro meses. Embarcamos em aviões de carga. Fazia um calor extraordinário. Fomos a um porto da Nicarágua. Na manhã do dia 14, zarpamos. Meu navio era o Houston.
Não sabíamos onde íamos desembarcar. Nosso pelotão desembarcou na Praia Larga. Encontramos resistência. Ao amanhecer, foi mais forte.
Haviam dito a nós que não teríamos resistência, e que teríamos cobertura área. À tarde, e sem que soubéssemos, a Força Aérea castrista já estava bombardeando o Houston, que afundou. Parte do pelotão nem sequer havia conseguido desembarcar.
Não sabíamos, mas já havia fracassado a operação.
Eu e meu cunhado fugimos. Nossa ideia era chegar às montanhas do Escambray, onde havia guerrilha [anticastrista]. Até o dia 29 estivemos escondidos, mas fomos presos. Ficamos mais de 20 semanas presos.
Os planejadores subestimaram a capacidade de Fidel Castro de controlar a população, qualquer sublevação.
Foi um plano que começou com [o presidente] Eisenhower, que não tinha nenhuma simpatia pelo governo que o sucedeu [Kennedy].
Se Nixon [então vice do Eisenhower] tivesse sido eleito presidente, a história teria sido outra. E a participação americana, muito maior.
Depois de 50 anos, o povo cubano segue sob a tirania mais profunda, mais estrita e radical que jamais nenhum povo viveu. É doloroso. Após 50 anos, chegamos à convicção de que a solução não pode ser violenta. Fizemos nosso trabalho na época.
Neste momento, o embargo é um mito. Cuba compra mais alimentos dos EUA do que o Brasil. Mas ainda é ferramenta para estabelecer uma mesa de negociação.
Enquanto as concessões são feitas sem nada em troca, Cuba não vai mudar pela própria vontade. Espero voltar a Cuba antes de morrer, construir a Cuba que sonhamos."
Folha de São Paulo, 17/04/2011

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