domingo, 10 de abril de 2011

Nova ordem diplomática

GEOPOLÍTICA
Populações agora também ditam a narrativa

RESUMO
Artífice do conceito de "soft power", Joseph Nye escrutina em seu mais recente livro o futuro do poder mundial, refletindo sobre as "narrativas" criadas por potências tradicionais e países emergentes, e sobre uma nova cultura geopolítica em que a diplomacia não se pratica apenas entre Estados, mas também entre populações.

Joseph Nye está nadando contra a corrente. A redistribuição de poder à qual assistimos, argumenta, não significa que os EUA serão superados pela China. E preocupar-se com isso é não só um erro, mas um risco -o medo de um conflito alimenta a própria profecia.
O que interessa para Nye é a ascensão de atores não estatais, proporcionada pelo superacesso à informação. "Na era da informação, não interessa só qual é o Exército vencedor. Interessa também qual é a narrativa vencedora", escreve. O recém-lançado "The Future of Power" (o futuro do poder) [PublicAffairs, 320 págs., R$ 45], ainda sem tradução em português, se baseia nesse argumento.
O livro coroa as décadas que Nye passou dissecando o poder por dentro -ele foi assessor para defesa e diplomacia nos governos Carter (1977-81) e Clinton (1993-2001)- e por fora, lecionando em Harvard.
Elogios a seu trabalho vêm dos dois lados do espectro político. Para a ex-secretária de Estado Madeleine Albright, "Nye é o mais proeminente especialista americano na substância, na diversidade, nos usos e abusos do poder". Seu predecessor conservador Henry Kissinger chamou outra obra do professor ("O Paradoxo do Poder Americano", de 2002) de "alerta em boa hora".
Aos 74 anos, Nye é um sujeito discreto -temperamento que contrasta com o de boa parte de seus colegas em Harvard. Seu tom é sempre baixo, embora firme. Suas aulas não têm firulas. Fala, mas se interessa pelo interlocutor.
É dele o conceito de "soft power", o poder que um país ou cultura tem de atrair seguidores e persuadir. Sua influência se mede aí: é rara hoje a análise de relações internacionais que não leve em conta ao menos uma das designações cunhadas por Nye.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista com o professor sobre as expectativas acerca da diplomacia nos próximos 30 anos.

 

Folha - Por que a previsão de que a China logo superará os EUA como maior potência global -visão da qual o senhor discorda- se tornou tão popular?
Joseph Nye -
Martin Wolf [colunista do "Financial Times"] chamou a China de superpotência prematura. Isso porque as pessoas pegam a taxa de crescimento, superalta, dão como certo que ela vai continuar crescendo sem nenhum obstáculo e concluem que isso a levará a um grande poder. Só que a história está cheia de exemplos de tropeços, quedas e surpresas. Então, é um tanto simplista usar apenas a taxa de crescimento [como paradigma]. Acho que uma taxa de crescimento de 10% é, de fato, impressionante. Mas não significa que a China estará à frente dos EUA. Mesmo alcançando o PIB dos EUA em tamanho, não significa que a composição do PIB chinês seja igual, medida em renda per capita. E eu não acho que a China vá se igualar aos EUA em renda per capita por décadas.

O sr. vê riscos em superestimar a percepção de que a China será a maior potência global. Quais?
O perigo é que, se as pessoas ficarem muito medrosas [em relação à ascensão chinesa], o medo em si se torne uma causa de conflito. Há quem argumente que a Primeira Guerra Mundial foi causada pela ascensão da Alemanha e pelo medo que isso causou no Reino Unido. E há quem diga que haverá um grande conflito neste século causado pela ascensão da China e pelo medo que isso cria nos EUA.
Não acredito nisso, porque a Alemanha de fato superou o Reino Unido em 1900, e eu não acho que a China esteja prestes a passar os EUA. Isso significa que temos mais tempo para moldar o ambiente no qual desenvolvemos nossa relação com a China. E também que temos menos a temer.

Se dividirmos o poder em três dimensões, como o sr. faz, os EUA ainda têm a primazia na primeira, puramente militar, mesmo com suas Forças Armadas levadas ao limite. Como o sr. vê o cenário nas outras duas dimensões: na que trata de controlar a pauta de debate, muitas vezes por meios econômicos, e na que se encarrega de moldar preferências, por meio do "soft power"?
De fato, em termos militares, os EUA continuarão na frente dos chineses. Em termos econômicos, considerando o tamanho total da economia, a China se equiparará aos EUA provavelmente na próxima década, mas não em renda per capita.
E em termos de "soft power", a China está promovendo grandes esforços para aumentar o seu, mas vai ser muito difícil enquanto eles não tiverem um sistema menos autoritário, ou enquanto sua ficha de direitos humanos continuar sob escrutínio. Para realmente superar os EUA nessa área, eles têm de perceber que muito do "soft power" vem da sociedade civil, e não apenas de ações do governo.

Os EUA estão recobrando o "soft power" que perderam com a Guerra do Iraque, durante os anos Bush [2001-09]?
Pesquisas de opinião pública dão a entender que sim. Os EUA perderam parte de seu apelo não só com a Guerra do Iraque, mas também com a crise econômica de 2008, que foi corretamente atribuída ao país.
A eleição de Barack Obama em si ajudou-o a recuperar "soft power". A ideia de que o sistema político americano não é um sistema corrupto, a ideia de que um afroamericano com um nome que soa estrangeiro possa se tornar presidente restabeleceu, em certa medida, a confiança no sistema político americano. Os esforços de Obama para se aproximar de outros países também ajudaram.

Isso é algo que esse governo tinha na cabeça ao tomar a decisão sobre a intervenção militar na Líbia, ao procurar chancela internacional?
Obama percebeu que, se os EUA usassem força contra a Líbia sem que isso fosse legitimado pela Liga Árabe e por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, criaria uma narrativa de que os EUA atacaram um país muçulmano pela terceira vez consecutiva. Seria muito ruim para o poder de atração americano.
Com as resoluções, a narrativa construída por Obama é a de que os EUA ajudaram a ONU a implementar uma responsabilidade de proteger legítima. Isso foi muito importante. E foi diferente de ?[George W.] Bush, que, quando não conseguiu uma segunda resolução [que apoiasse ataques], seguiu adiante assim mesmo, e pagou caro.

Qual o sr. acredita ser a principal mudança da diplomacia neste século?
O fato de a diplomacia não ser mais só feita entre governos. A diplomacia agora é feita entre governos e populações em diferentes países, ou mesmo entre as populações em si. Isso amplia muito o contexto dentro do qual os países se relacionam. Estamos chegamos a um nível muito mais complexo de diplomacia.

Sob a luz dessas mudanças, como ficarão as instituições internacionais e multilaterais? A ONU, a Organização Mundial do Comércio e o FMI estão ultrapassados na forma como existem hoje?
Alguns deles, sim. O Conselho de Segurança da ONU representa um mundo de 1945. Isso está ultrapassado. Mas a existência de um conselho de segurança, não. As cotas de votação do FMI representam um mundo antigo, mas a estrutura do FMI não está ultrapassada. Acho que é possível fazer ajustes. Países emergentes como o Brasil, a Índia, a África do Sul -vou excluir a China aqui- têm exigido mais voz no palco internacional. De certa forma, têm conseguido, mas ainda assim não me parece que se possa dizer que o status quo tenha mudado.

Como ele poderia mudar?
Em certo aspecto, mudou com a criação do G-20 [grupo das 20 principais economias do mundo, que agrega o antigo G8 mais países emergentes]. Ele deixou claro que, para ser válido, o debate precisa ser ampliado. Seria bom vermos um Conselho de Segurança da ONU no qual a Índia, o Brasil, o Japão fossem membros permanentes. Mas um dos problemas com isso é chegar a um consenso para aprovar [a reforma].

Vários analistas no Brasil criticaram a abstenção brasileira na votação sobre a intervenção na Líbia, alegando que isso não se alinha à aspiração do país ao conselho da ONU. Isso nos remete ao seu conceito de "smart power" [combinação do poder duro, de coerção, militar e econômico, com o "soft power"]. Como ele poderia servir ao grupo de países emergentes?
O crescimento econômico do Brasil e da Índia também, de certa, forma, aumenta seu poder duro. E o fato de o Brasil e a Índia serem democracias aumenta seu "soft power". Minha impressão -não sei se isso está correto- é de que a presidente Dilma está dando mais ênfase à política de direitos humanos, algo que acho que também aumenta o "soft power". Assim, o Brasil consegue mais poder duro com seu impressionante crescimento econômico e mais poder de atração por conta deste e de sua política mais orientada aos direitos humanos.

Há paradoxo no fato de um país que aspira ao conselho da ONU evitar o uso do poder militar?
Se um país está no Conselho de Segurança da ONU e não chancela questões de direitos humanos, isso prejudica parte de seu "soft power". É interessante que, na questão da zona de exclusão aérea na Líbia, nenhum dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) tenha votado a favor. Pena.

Com tantas previsões sobre o futuro do poder e da diplomacia, ninguém esperava a onda de revoltas e revoluções no Oriente Médio e Norte da África. Estamos prestando atenção nas coisas erradas?
As pessoas não prestaram muita atenção ao que eu chamo de difusão do poder -ou seja, que a revolução da informação estava dando poder a determinados grupos de indivíduos.
Sobre o Egito, por exemplo, havia uma tendência geral em acreditar que lá ou se apoiava os autocratas, ou se apoiava extremistas religiosos.
Não se prestou atenção suficiente ao fato de que o enorme crescimento de acesso à informação estava criando uma camada política intermediária.

E como os futuros diplomatas devem se preparar para lidar com isso e com atores não estatais?
Deveria se gastar mais tempo aprendendo a lidar com a sociedade, e não só se aprendendo a escrever memorandos e relatórios. Os atores sociais vão se tornar cada vez mais importantes.

"Segundo Nye, "o perigo é que, se as pessoas ficarem muito medrosas [em relação à ascensão chinesa], o medo em si se torne uma causa de conflito"

"Para o professor, a diplomacia se torna mais complexa a partir do momento em que deixa de ser praticada exclusivamente entre governos e passa ?envolver populações"

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