sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Lei antivéu é manobra eleitoreira de Sarkozy"

Para o analista francês Patrick Weil, restrições violam liberdade religiosa

Desde a última segunda, mulheres na França não podem utilizar véu que cubra o rosto; infração motiva multa ou aulas


AMARO GRASSI
DE SÃO PAULO

A lei que limita o uso de véus islâmicos na França, em vigor desde a segunda-feira, é uma manobra do presidente Nicolas Sarkozy para tentar a reeleição em 2012 e viola a liberdade religiosa, afirma o historiador Patrick Weil.
Weil é especialista em imigração, diretor do centro de pesquisa CNRS da Universidade Paris 1 e autor de "How to be French" (Como ser francês, em tradução livre; Duke University Press, de 2009).

 

Folha - A proibição aos véus é a libertação da mulher, como diz o governo, ou uma violação da liberdade religiosa?
Patrick Weil -
O argumento em favor da lei era que ela não tinha nada a ver com religião, mas com convenções sociais, como não andar nu na rua ou praticar o incesto.
Mas a Suprema Corte decidiu, de modo estranho, que a proibição é constitucional, à exceção de local de pregação religiosa aberto ao público.
Ao colocar essas exceções, a Corte admitiu que a proibição não é baseada em normas sociais -é proibido andar nu ou praticar incesto nos locais de pregação- e admitiu que havia uma violação à liberdade religiosa.
Portanto, proibir o véu completo nas ruas, o local de maior liberdade, me parece violar a liberdade religiosa.

Essa lei é uma tentativa de reforçar a identidade francesa?
As pessoas na França amam o seu sistema laico, porque há liberdade para crer e no que crer. Mas [Nicolas] Sarkozy não gosta disso.
E agora ele está criando uma divisão entre muçulmanos e não muçulmanos. E ele espera ganhar a eleição ao criar divisão entre maioria e minoria. Não é uma questão de identidade, mas eleitoral.

Quais as consequências para a integração das comunidades muçulmanas na França?
A discussão sobre a burca, que é associada ao islã, é vista pelos muçulmanos como um debate maluco, porque a maioria não pensa usá-la. E o fato de que eles são associados à burca gera mal-estar.
É como se os católicos fossem atacados o tempo todo porque algumas freiras vivem reclusas em conventos.
Então há essa manipulação de prática muito marginal que é usada para atacar toda a comunidade islâmica.

Então o sr. acha que vai alimentar a divisão no país?
Não, eu acho que não. O governo é muito impopular. Os muçulmanos não estão sozinhos. Todo mundo sabe como Sarkozy manipula o assunto. Não há surpresa.

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