quarta-feira, 20 de abril de 2011

Gradualismo

ANTONIO DELFIM NETTO
Estamos num momento interessante. De um lado, existe um otimismo moderado do governo com relação à possibilidade de manter a inflação sob controle, fazê-la retornar a 4,5% no final de 2012 e conseguir um crescimento médio do PIB em torno de 4,5% no biênio 2011-12. De outro, há um pessimismo exagerado de alguns analistas do mercado financeiro. Estaríamos às portas de um profundo desarranjo fiscal e de perda completa da ancoragem da expectativa da taxa de inflação.
O primeiro diagnóstico sugere uma política econômica cuidadosa e vigilante para acomodar um razoável crescimento com aumento da inclusão social.
O segundo diagnóstico prescreve uma ação drástica: um choque monetário para recuperar a "credibilidade" do Banco Central, supostamente perdida em 2010. Os dois têm custos e riscos sociais e políticos muito diferentes e é natural que o poder incumbente procure minimizá-los.
O segundo diagnóstico é apoiado numa visão que não corresponde à realidade que estamos vivendo.
Quando se analisa o que ocorre no mundo e se compara com o que nos acontece, verificamos que a situação fiscal (deficit nominal e relação dívida/ PIB), mesmo não sendo a que gostaríamos, está longe de ser um desastre, e que a nossa taxa de inflação batendo no teto de tolerância da "meta" não está mais fora de controle do que a de qualquer outra do mundo emergente.
Um dramático choque fiscal e um significativo aumento da taxa de juro real (já a maior do mundo e três vezes maior do que a do segundo colocado) poderia nos levar de volta à recessão. Não tenhamos ilusões.
É impossível "calibrar" os efeitos de tal choque. Uma vez iniciado, ele se incorporará às expectativas dos trabalhadores que, com o risco de perderem seus empregos, cortarão seu consumo e dos empresários que, com medo de perderem o equilíbrio de suas finanças, reduzirão a produção e adiarão seus investimentos.
Quem "calibra" para reduzir o crescimento a 3% poderá acabar reduzindo-o para -1%.
Diante desses riscos, é claro que a estratégia cuidadosa do governo parece muito melhor: reduzir o crescimento real das despesas de custeio para ficar abaixo do crescimento provável do PIB e, além da manobra dos juros, introduzir medidas macroprudenciais para colaborar no ajuste da demanda.
Quando o Banco Central alonga o período da política monetária e aceita a possibilidade da taxa de inflação superar momentaneamente a "meta", ele não está desistindo do combate à inflação.
Está apenas tentando reduzir os custos sociais e políticos do ajuste necessário. Se não atingir o objetivo, poderá mudar a ênfase dos seus instrumentos e pagará um pouco mais caro por isso.

ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo

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