segunda-feira, 11 de abril de 2011

Filme sobre Tancredo corta cena de doações de Maluf

Versão não finalizada mostrava que aporte fora revelado por sobrinho

Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo, dizia que ajuda era para a campanha de 1982; Maluf confirmava caso

RODRIGO VIZEU
DE SÃO PAULO

O filme "Tancredo - A Travessia", cinebiografia de Tancredo Neves dirigida por Silvio Tendler, chegou aos cinemas sem cenas que afirmam que o mineiro, que morreu antes de tomar posse como presidente, em 1985, recebeu doações para a campanha do hoje deputado federal Paulo Maluf (PP-SP).
O filme foi exibido na semana passada no festival de documentários "É Tudo Verdade", em São Paulo.
Segundo a produção do filme, o neto de Tancredo, senador Aécio Neves (PSDB-MG), acompanhou a produção do filme de perto. Tendler negou motivação política para os cortes ou interferência de Aécio. O tucano também negou ingerência.
Em dezembro do ano passado, reportagem da Folha mostrou, após ter acesso a uma versão não finalizada do filme, que as doações foram reveladas pelo sobrinho de Tancredo e hoje senador Francisco Dornelles (PP-RJ).
Dornelles afirma que recorreu a Maluf após Tancredo lhe relatar uma situação financeira "caótica" em sua campanha para governador de Minas em 1982.
Maluf, em depoimento à versão não finalizada do filme, confirma: "Dei-lhe uma ajuda dentro da lei".
Em 1985, Tancredo e Maluf eram adversários quando o mineiro foi eleito o primeiro presidente após a ditadura. Tancredo era do oposicionista MDB e Maluf, do PDS.
Tendler disse acreditar que Maluf fez a doação para derrotar o adversário de Tancredo em Minas, Eliseu Resende. Assim, ele enfraqueceria Mário Andreazza, aliado de Resende, que disputava com Maluf a candidatura do PDS a presidente.
Questionado em 2010, Aécio disse que, se houve a doação, foi "nada que tenha sido significativo". A Folha apurou que houve autocensura na equipe de Tendler para não incomodar a família.
A doação era um dos pontos que mostravam contradições do mineiro. Tendler rechaça a avaliação: "[A cena] não revelaria contraditório, mas sutilezas da política".

Publicado na Folha de São Paulo em 11/04/2011

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