terça-feira, 19 de abril de 2011

EUA recebem alerta pelo risco da dívida

Agência de classificação de risco coloca o país em "perspectiva negativa", o que derruba Bolsas pelo mundo

S&P avalia que políticos não se entendem sobre a necessidade de reduzir o deficit publico e a alta dívida norte-americana

ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

Os EUA receberam ontem projeção "negativa" para sua nota de risco da dívida soberana, dada pela Standard & Poor's, uma das principais agências de avaliação de investimentos do mundo. A notícia derrubou diversas Bolsas ao redor do mundo.
A mudança na perspectiva representa um alerta de que aumentou o risco de o país não poder pagar a sua dívida no futuro. A perspectiva negativa é um passo anterior à decisão de rebaixar a nota de risco de um país.
A projeção anterior para os EUA era "estável". O país hoje tem nota AAA, a melhor da agência, denotando que sua capacidade de cumprir compromissos e pagar no prazo os papéis de dívida que emite é extremamente alta.
Um possível rebaixamento indicaria que a S&P crê que essa capacidade diminuiu, o que pode afugentar investidores. Segundo a agência, há uma chance em três, pelo menos, de a nota dos EUA cair em dois anos.
O motivo da projeção negativa é a situação do deficit federal americano, que deve atingir US$ 1,6 trilhão antes do final do ano, e a crescente dívida pública dos EUA, calculada hoje em mais de US$ 14,2 trilhões.
"Mais de dois anos depois do início da crise, políticos dos EUA ainda não concordaram em como reverter a deterioração fiscal ou resolver as pressões fiscais de longo prazo", disse a S&P.
Quanto maior o buraco da dívida, mais difícil é para o governo pagar no prazo seus compromissos.
A S&P se disse preocupada com a chance de a Casa Branca e o Congresso não se entenderem sobre o Orçamento do ano fiscal de 2013. O alerta chega após duras batalhas sobre os gastos públicos de 2011 e 2012.
O governo dos EUA criticou o anúncio. "Fundamentalmente, a S&P está fazendo um julgamento político, e não acho que ele está correto", disse Austan Golsbee, conselheiro econômico da Casa Branca. O Tesouro disse que "a projeção subestima a capacidade dos líderes americanos de se unir".
Não é, porém, a primeira vez que uma agência alerta para as dificuldades relacionadas ao déficit americano.
A Moody"s, uma das principais concorrentes da S&P, não chegou a divulgar um alerta oficial sobre a dívida dos EUA, mas no fim de março um dos seus altos executivos declarou que, se nada for feito, "uma avalanche se formará em 2012 e depois".

BOLSAS EM QUEDA
Ainda que um calote siga quase inimaginável, a projeção sacudiu as Bolsas pelo mundo. Preocupações crescentes com a crise fiscal na Europa também contribuíram para o movimento.
O índice Dow Jones, uma referência mundial, caiu 1,14% e o Nasdaq, 1,06%. Já o Stoxx Europe 600 caiu 1,7%, e a Bovespa caiu 1,9%. O petróleo cru e outras commodities também caíram, devido a temores de que a demanda nos EUA diminua. O ouro, considerado mais seguro em tempos nebulosos, subiu.
O FMI afirmou em seu último relatório sobre a situação fiscal mundial que a dívida dos EUA é um risco para a economia global. A dívida americana e de vários países cresceu após a crise de 2008 porque os governos tiveram de investir fortemente e assumir por algum tempo o lugar dos gastos privados.

Folha de São Paulo, 19/04/2011

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