terça-feira, 19 de abril de 2011

Desunião europeia

Editoriais
editoriais@uol.com.br


Não faz muito tempo a União Europeia era vista como o exemplo notável da possibilidade de atingir um desenvolvimento socialmente equilibrado por meio de consensos supranacionais e do abandono dos particularismos.
A realidade sempre foi mais matizada do que esse ideal -o que não impediu que inspirasse outras iniciativas, entre elas o Mercosul. Agora, diante do agravamento das disputas internas, cabe até perguntar se paira uma ameaça sobre a ideia chamada Europa.
A integração está em xeque desde a crise de 2008, que expôs os desequilíbrios entre os 17 países da UE que compartilham o euro. Força exportadora, a Alemanha foi menos afetada que a maioria dos parceiros de bloco, em parte porque vinha apertando salários e reduzindo o Estado de bem-estar.
O governo da chanceler Angela Merkel, que estava para enfrentar uma série de eleições regionais, relutou em ajudar os vizinhos. Quando o fez, impôs condições consideradas draconianas.
No último fim de semana, veio novo exemplo de que cálculos internos se sobrepõem aos da União. A França interrompeu o tráfego ferroviário com a Itália, para impedir a passagem de imigrantes norte-africanos. Roma lhes havia concedido vistos temporários de trabalho e, em tese, eles poderiam circular nos 25 dos 27 países da UE entre os quais não há controles fronteiriços.
A Comissão Europeia avalia que a França tinha direito à medida "pontual", mas o premiê italiano Silvio Berlusconi -que, como o presidente francês Nicolas Sarkozy, fez do controle imigratório um trunfo político- reclama a solidariedade do bloco. A Itália recebeu 23 mil refugiados da Tunísia, cujo ditador, bem relacionado com Paris, foi derrubado no início das rebeliões árabes.
O medo de uma avalanche migratória vinda da África foi uma das motivações para que Sarkozy, apoiado pelo premiê britânico, David Cameron, tomasse a frente da campanha pela intervenção contra o ditador Muammar Gaddafi. No entanto, a operação liderada pela Otan (aliança militar ocidental) também dividiu a UE.
Sob o argumento de que a história lhe ensinou que a força constitui um recurso extremo, a Alemanha se absteve de aprovar a ofensiva na ONU. Franceses e britânicos, que nunca se entenderam em muita coisa, agora se unem para apontar oportunismo no "pacifismo" alemão. Tais divergências, contudo, não parecem suficientes para desfazer a rede de acordos que sustenta o bloco.

Nenhum comentário: