sábado, 23 de abril de 2011

Deposição de ditador sírio não interessa nem a países ocidentais nem a vizinhos

ANÁLISE

SIMON TISDALL
DO "GUARDIAN"

Em um momento em que a turbulência na Síria foca cada vez mais não só o regime mas também seu líder enfraquecido, a grande dúvida para os sírios é se o presidente Bashar Assad será deposto, como aconteceu com seus colegas egípcio e tunisiano.
Para governos ocidentais e vizinhos, entretanto, a questão afeta seus interesses: a queda de Assad é desejável? A resposta não verbalizada é, principalmente, "não".
É bem verdade que os EUA e seus aliados europeus já expressaram preocupação com a violência na Síria.
Mas, diferente do Egito, onde, após hesitação inicial, tomaram partido claro, exortando Hosni Mubarak a sair; e da Líbia, onde intervieram pelos rebeldes, Washington e Londres até agora não tomaram medidas para apoiar os manifestantes sírios ou para punir o regime.
Uma razão para explicar a passividade é que EUA, em especial, dispõem de comparativamente pouca alavancagem. A Síria já está sujeita a sanções americanas, e suas relações diplomáticas com os EUA são tênues.
Também cabe o receio de que a queda de Assad e uma instabilidade solapariam o esforço de paz entre israelenses e palestinos; atrapalhariam o delicado equilíbrio no Líbano e no Iraque; e dariam abertura a extremistas.
Os países da região também são a favor do status quo. A Turquia acredita que, se a situação descambar, poderia reavivar o clima separatista na minoria curda nacional, com impacto no sudeste.
Israel receia que um novo governo sírio pudesse fazer pressão mais agressiva pela devolução das colinas de Golã. A Arábia Saudita se opõe por princípio a tudo que recenda a democracia.
E a Europa tampouco lidera a torcida por mudanças. O fato de a União Europeia ser a maior parceira comercial da Síria e de comprar petróleo sírio pode ter alguma relação com isso.
Naturalmente, este consenso repulsivo não é aventado ou divulgado. Na teoria, todos esses governos são a favor de reformas.

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