segunda-feira, 18 de abril de 2011

Brasileiro mediou encontro entre Che Guevara e os EUA

Armada pelo diplomata Edmundo Barbosa, reunião secreta ocorreu 4 meses após fracassada invasão da baía dos Porcos
 
Em memorando enviado a Kennedy, americano diz que Che "agradeceu" pela tentativa frustrada de depor Fidel Castro
 
ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

Eram 2h em Montevidéu naquele 17 de agosto de 1961, exatos quatro meses depois da invasão da baía dos Porcos. Foi então, no meio de uma festa de aniversário, que um brasileiro intermediou um histórico encontro entre um emissário de Cuba -Che Guevara (1928-1967)- e um diplomata norte-americano.
Ocorreu ali a primeira reunião de alto nível entre os dois países após o fracassado ataque patrocinado pela CIA na praia cubana, que completou 50 anos ontem.
O diplomata brasileiro Edmundo Barbosa da Silva não só armou o encontro secreto como serviu de intérprete entre Richard Goodwin, ex-subsecretário dos EUA para Assuntos Inter-Americanos, e Che, que usava "uniforme verde e a costumeira barba longa e despenteada".
A informação está no memorando que Goodwin enviou cinco dias depois ao presidente John Kennedy (1961-63), texto que permaneceu secreto por mais de 30 anos.
O documento está hoje na internet, no arquivo dos National Security Archives, da Universidade George Washington. Mas a participação da diplomacia brasileira segue pouco conhecida, e ainda há muito a ser explorado.
Pouco antes do aniversário da invasão, o NSA entrou na Justiça para obrigar a CIA a liberar o "História Oficial da Invasão da Baía dos Porcos".
"A CIA continua fazendo a história de refém", disse Peter Kornbluh, que dirige o projeto de Cuba do NSA.

ESFORÇO BRASILEIRO
No memorando, o subsecretário americano afirma que "membros das delegações brasileira e argentina fizeram esforços para organizar o encontro" com Che. Goodwin conta ter sido convidado para a festa de um diplomata brasileiro em Montevidéu. Depois de uma hora no local, "um dos argentinos me disse que Che também fora convidado".
"Ele chegou por volta das 2h e indicou Edmundo Barbosa da Silva, do Brasil (...), que tinha algo a me dizer."
A narrativa descreve um dos principais momentos do encontro: o famoso "agradecimento" de Che aos EUA pelo fiasco da baía dos Porcos.
"Ele disse que queria nos agradecer muitíssimo pela invasão, que teria sido uma grande vitória política -permitiu consolidar [a revolução] e transformou Cuba de pequeno país incomodado em um igual", diz Goodwin.
O memorando ainda delineia um retrato elaborado de Che. "Sob a barba suas feições eram bastante suaves, quase femininas, e seus modos intensos", diz Goodwin.

Folha de São Paulo, 18/04/2011

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