segunda-feira, 18 de abril de 2011

As três dívidas do Peru

Editoriais

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A eleição presidencial no Peru deu origem a manifestações localizadas de cunho racista contra Ollanta Humala, que teve 32% dos votos e disputará o segundo turno, em junho, com Keiko Fujimori (24%), filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990 a 2000).
O fato de oponentes se lançarem na depreciação da origem indígena de Humala chama atenção para a marginalização histórica desse contingente, estimado em 30% a 45% dos peruanos.
Já se comentou aqui a desigualdade de renda no Peru. A discriminação de fundo étnico -e a forma como ela se reflete na relação entre Lima e demais regiões- é outro fator relevante para explicar a baixa popularidade dos últimos governos, a despeito do crescimento econômico impulsionado pelos preços internacionais de minérios como cobre e prata.
Esses recursos estão principalmente em áreas dos Andes e da selva amazônica onde é maior a concentração de populações indígenas. Tanto o atual presidente, Alan García, quanto o antecessor, Alejandro Toledo, foram acusados de não consultar o eleitorado regional sobre concessões para exploração das riquezas naturais.
É sintomático que, apesar de ocuparem lados opostos no espectro político, Humala (à esquerda) e Keiko (à direita) proponham agora o aumento de impostos cobrados das mineradoras a fim de financiar gastos sociais.
O deficit peruano tem três componentes -socioeconômico, étnico e democrático. Uma das razões para sua sobrevida é a coincidência entre a democratização há 32 anos, após um ciclo de ditaduras militares, e as ações armadas do Sendero Luminoso.
De um lado, o grupo maoísta tentava associar-se à cultura indígena e conquistar adeptos nessa população. De outro, o país viveu anos sob estado de exceção no combate ao terrorismo senderista, época em que se acentuou o preconceito na região costeira contra habitantes do altiplano e da selva.
Esse é o contexto do quadro eleitoral atual, mais complexo que os estereótipos que apontam Humala como um novo Hugo Chávez e Keiko como a cópia de Fujimori. Os traços autoritários que ambos exibem são sintomas díspares de um mesmo mal -o triplo deficit peruano.
Folha de São Paulo, 18/04/2011

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