sexta-feira, 15 de abril de 2011

Argentina condena seu último ditador à prisão perpétua

Bignone, que passou faixa a Raúl Alfonsín, é acusado de coautoria em crimes diversos
LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

A Justiça argentina condenou ontem à prisão perpétua outro ex-presidente do país por crimes contra a humanidade ocorridos na última ditadura (1976-1983).
Reynaldo Bignone, 83, último militar a dirigir a Argentina -foi ele que passou a faixa a Raúl Alfonsín, primeiro presidente da redemocratização, em 1983-, passará o resto da vida em um cárcere comum, segundo a sentença, por coautoria de sequestros, torturas e homicídios.
O mentor do golpe e primeiro presidente da ditadura, Jorge Videla, 85, também cumpre pena perpétua -ele foi condenado em 2010.
Bignone já tinha uma condenação a 25 anos de prisão por outros crimes ocorridos no período. Ele também é implicado em outro processo que tramita na Justiça, sobre os crimes de ocultação e sequestro de 34 bebês de militantes de esquerda.
O ex-presidente foi condenado ontem pela participação no sequestro e morte de estudantes e militantes da esquerda peronista. Ele também foi relacionado como responsável pelo sequestro de um ex-deputado federal no final da década de 1970.
Quase todas as vítimas estiveram no Campo de Mayo, um dos 340 centros de detenção clandestinos do regime. Segundo a ação, os crimes se deram no período seguinte ao golpe de março de 1976.
Além de Bignone, foram condenados à prisão perpétua Martín Rodríguez, ex-chefe de inteligência do Exército, e Luis Patti, ex-chefe de polícia de Buenos Aires. A leitura da sentença mobilizou o país: emissoras de TV e rádio pararam a programação para transmiti-la ao vivo.
Com os casos de ontem, já são 204 as condenações de ex-integrantes das Forças Armadas, polícias, forças de segurança e civis envolvidos na repressão. São mais de 480 pessoas presas, segundo o Ministério Público Federal.
A Argentina teve uma das ditaduras mais brutais da América Latina, com quase 30 mil mortos e desaparecidos em oito anos.

SAIBA MAIS
Militar passou faixa em 1983 a Raúl Alfonsín


DE BUENOS AIRES

Último ditador da história argentina, Reynaldo Bignone passou a faixa presidencial a Raúl Alfonsín, o presidente da redemocratização, em 1983.
Ele assumira a Presidência em julho de 1982, logo após o fracasso na Guerra das Malvinas, em meio à crise econômica. Em seu primeiro discurso, o general avisou que convocaria eleições abertas.
Bignone participou do golpe que derrubou a presidente Maria Estela Martínez de Perón, em 1976, e chefiou o Campo de Mayo, um dos maiores centros de detenção do regime.

Folha de São Paulo, 15/04/2011

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