terça-feira, 19 de abril de 2011

Abertura imobiliária pode mudar Havana

DA ENVIADA ESPECIAL A HAVANA

No bonito Passeio do Prado, na entrada do centro histórico de Havana, todos os dias se reúnem dezenas de homens e mulheres em busca de "trocar" casas. Ou pelo menos isso é o que eles dizem às autoridades.
Há 50 anos é proibido vender ou comprar casas em Cuba, a não ser que o comprador seja o Estado. É permitido só "permutar" a casa por outra, à conveniência das partes. O mesmo vale para carros comprados após 1960.
O estranho sistema alimenta há décadas um mercado imobiliário subterrâneo de compras e vendas que está prestes a emergir e que pode, segundo observadores, mudar a cara de Havana.
Muitos dos frequentadores do Prado são, na verdade, corretores de imóveis experientes, que facilitam a negociação, fecham contratos de gaveta ou simulam "trocas".
Um grupo deles ontem entrou em uma discussão calorosa: entre cinco, dois não acreditavam de jeito nenhum que o governo liberaria a compra e venda de casas, como sugerido por Raúl Castro em seu discurso no sábado.
Ontem, a imprensa oficial confirmou que os delegados do Congresso do PC "decidiram levar a plenário que se estabeleça compra e venda" de casas e a flexibilização de outras modalidades, como doação e arrendamento.

CRESCIMENTO
"Se isso for aprovado, e acredito que vai ser, o nosso negócio vai crescer muito. Hoje tem gente que manda dinheiro de Miami para um parente comprar uma casa, mas é um risco. Pode ficar sem o dinheiro e sem a casa. Tem muita gente esperando por isso", diz José R., 45, do lado dos corretores otimistas e há três anos no negócio.
De acordo com os corretores ilegais, um apartamento de 60 metros na Havana Velha, a parte histórica da cidade, pode custar US$ 10 mil no mercado negro, se necessitar de muitos reparos. Um valor ainda bastante baixo para uma capital turística.
Já nos registros do governo, casas e apartamentos podem custar irrisórios 10 mil pesos cubanos (US$ 400).
A mudança tem potencial para mostrar a desigualdade na ilha -os sem acesso a divisas, atualmente também vivendo nas áreas centrais da cidade, podem ser empurrados para as periferias.
Folha de São Paulo, 19/04/2011

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