quinta-feira, 17 de março de 2011

Obama no Brasil

KENNETH MAXWELL
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, manteve o Brasil na gaveta por tempo demais. Por isso, é bom que ele tenha, por fim, decidido visitar a América do Sul, feito de Brasília a sua primeira parada e exibido bom-senso ao visitar Dilma Rousseff, a presidente brasileira que tomou posse recentemente.
Será um encontro histórico.
Nem que seja pelo fato de ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos a se encontrar com a primeira presidente do Brasil.
Thomas Jefferson escreveu, em 1820, que seria "uma felicidade ver as frotas do Brasil e dos Estados Unidos navegando juntas como irmãs, parte da mesma família e em busca do mesmo objetivo". Combater o tráfico de escravos era o "mesmo objetivo" que Jefferson tinha em mente.
Na verdade, nem o Brasil nem os Estados Unidos se distinguiriam quanto a isso no século 19. E Obama, de qualquer modo, é produto do mundo pós-colonial, pelo lado paterno, e do Havaí, pelo materno.
A visita de Obama será uma operação imensa, do ponto de vista logístico. Nenhum presidente norte-americano pode viajar a qualquer parte sem um elenco de centenas de subordinados, assessores, carros blindados e seguranças variados.
Ele também trará sua mulher, Michelle, e as filhas do casal, Sasha e Malia. No Rio de Janeiro, Obama tem um grande discurso planejado para a Cinelândia. Também planeja visitar o Corcovado.
Ele não visitará Chapéu Mangueira, a favela sobre a praia do Leme na qual Marcel Camus filmou "Orfeu Negro", em 1959, baseado na peça "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes.
Sérgio Cabral, o governador do Rio de Janeiro, queria que Obama visitasse o local. O governador Cabral aparentemente não leu o que Obama escreveu sobre "Orfeu Negro" em sua autobiografia.
Obama recorda que assistiu ao filme com a mãe, por insistência dela. O presidente americano diz que se sentiu chocado pelo retrato condescendente dos afro-brasileiros. Seria desnecessário dizer que a mãe de Obama, Stanley Ann Dunham, ao contrário do filho, adorou o filme (como eu).
Em lugar disso, Obama visitará a favela Cidade de Deus -infame em 2002 devido à violência causada pelas drogas e apenas recentemente "pacificada"-, que serviu de locação ao filme homônimo de Fernando Meirelles. São todas locações boas, ou ao menos evocativas, decerto.
Determinar até que ponto a visita obterá sucesso quanto à difícil tarefa de mediar as questões mais amplas referentes à (relativa) ascensão do Brasil e ao (relativo) declínio dos Estados Unidos só será possível mais tarde.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras na Folha de São Paulo

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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