quinta-feira, 17 de março de 2011

2011

ANTONIO DELFIM NETTO
O esporte nacional é estimar (ou melhor, "prever") qual será o nível do crescimento do PIB, da taxa de inflação e do deficit em conta-corrente neste ano.
Os economistas que estão fora do restrito círculo dos que formulam as políticas (os "policy makers", que têm suas "teorias", suas ideologias e idiossincrasias) as veem sob diferentes ângulos: com outras "teorias", ideologias e idiossincrasias e, portanto as avaliam diferentemente. É preciso paciência e lucidez para aceitar esse fato.
Não se trata, necessariamente, de má-fé. É apenas consequência natural da complexidade dos fenômenos econômicos. Criaram-se "escolas" cujo sucesso relativo depende da sua retórica e de sua capacidade de "explicar" convincentemente certos "fatos" históricos.
É exatamente essa possibilidade de múltiplas visões (cada uma delas pretendendo o monopólio da "verdade") que dá "atratividade" às projeções dos mais diferentes analistas.
Cada um usa os seus conhecimentos como oráculos que transmitem ao público os impactos que as medidas econômicas tomadas pelo governo terão no futuro, o que tem enorme poder de influenciar a "mídia".
A diferença entre as medidas gradualistas do governo (que pode cometer erros) e as agressivas sugeridas por alguns analistas (que também erram) é que as primeiras são frequentemente condicionadas pela factibilidade política (e outros compromissos como a contínua redução da pobreza). Já as segundas são condicionadas só pelos valores dos autores no seu papel predileto, mas nunca explicitamente revelado, de "déspotas esclarecidos" portadores da "ciência" econômica salvadora...
Como é evidente, o que será o ano de 2011 não está dado.
Ele dependerá da qualidade e da credibilidade das políticas internas e dos avanços que pudermos implementar no nível micro e macroeconômicos.
São muitos e necessários, como o estrito cumprimento do ajuste proposto (que parece razoável), da manipulação criteriosa da taxa de juros, do uso subsidiário de medidas macroprudenciais, da melhoria da gestão pública, do enfrentamento definitivo dos mecanismos de autoalimentação inflacionária da multitude de indexações, do problema da previdência pública, da flexibilização do juro real da caderneta de poupança e da evolução da economia mundial.
Este ano não depende apenas de fatores objetivos, mas das "expectativas" que se formarão em torno deles e da capacidade do governo de cooptar o setor privado sobre a qualidade de sua ação.

ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo

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